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Divagações sobre o olho, o Estado e o cinema

A partir de uma questão que me intrigou nessa semana passei a pensar sobre algumas ideias sobre o cinema e sua lógica com a tecnologia e o poder.

A partir de uma questão que me intrigou nessa semana passei a pensar sobre algumas ideias sobre o cinema e sua lógica com a tecnologia e o poder. Divaguei comigo mesmo que parece haver uma grande ruptura ontológica no momento que a humanidade se vale da técnica para aumentar a distância entre os seres humanos na guerra. Lembro que foi vendo o filme “O invasor” de Beto Brandt que pensei: por que é tão recorrente a tentativa de comprar uma arma para matar um inimigo em questão, tratando-se de uma pessoa que nunca cometeu um homicídio, ao invés de matar por outros meios menos tecnológicos? Assim, a partir dessa leve divagação, um percurso da história dos aprimoramentos tecnológicos de guerra passou pela minha cabeça: pedras lascadas e ossos, flechas, lanças, fogo, metal, pólvora, canhão, revólver, mísseis intercontinentais e drones.

Deixando um pouco de lado esse impulso delirante que me moveu ao tema em questão, gostaria de trazer com esse texto algo sobre em que medida o cinema também se enquadra nesse avanço tecnológico que gera o distanciamento ontológico, ou seja, o aumento da distância entre sujeito-objeto.

Um acontecimento importante permeia uma lógica da estrutura da modernidade em relação a tecnologia e o olhar: a criação do projeto do Panóptico por Jeremy Bentham. Foi um sistema criado para estabelecer o controle de presidiários a partir de uma torre central localizada no centro de determinado presídio. Tal torre possuía uma tecnologia que impedia que os presos soubessem se realmente havia ali algum guarda vigiando. E assim, tal como um Deus onisciente, o poder do Estado vigilante expresso através do guarda poderia exercer controle pleno da moralidade dos delinqüentes a partir da plena vigilância incerta.

Longe de querer explorar teoricamente como se dá esse controle, manterei aqui a estratégia delirante de se valer de imagens que me vêem à mente através dos filmes. Alguns filmes chamam a atenção por tratarem o tema da vigilância do Estado pela representação do olho. Começaremos com dois deles: Minority Report (2002), de Steven Spielberg e Laranja Mecânica (1971), de Stanley Kubrick. No primeiro filme há um sistema policial do futuro que se baseia na premonição de três videntes genéticamente modificadas que conseguem antecipar um crime que irá ocorrer. O problema com esse sistema aparentemente perfeito aparece quando um policial que interpreta as imagens do futuro de tais videntes descobre que será o próximo criminoso. Assim, deve lutar contra tal sistema que incriminará ele mesmo. A cena que melhor representa a lógica que queremos explorar aqui sobre a relação do olho, Estado e tecnologia, é a de que tal policial deve fazer um transplante de olho para fugir da dominação do Estado.

Em contraposição ao Minority Report, Laranja Mecânica conta a história de um processo psicológico de controle baseado na exibição de filmes de crimes para criminosos, juntamente com doses de medicamentos que causam enjôos a fim de associar as imagens vistas com tais sensações e gerar um controle artificial dos indivíduos alterando o antigo sentimento de prazer com o crime.

Laranja Mecânica (1971)

Minority Report 2002

A questão que fica no ar nesse texto é a de como o cinema se enquadra no processo histórico das tecnologias de guerra. Minha saída para esse impasse é a de que em cada salto tecnológico há uma ruptura ontológica que não conseguimos digerir de imediato. Por exemplo: com a bomba intercontinental a guerra é tratada não mais como uma mudança palpável e real, mas uma catástrofe que se assiste à distância. O drone seria a forma que menos conseguimos compreender atualmente, pois se vale de um deslocamento do poder do Estado na forma de um olho armado que atinge outro Estado.

Peço desculpas pela falta de clareza com esse texto fragmentado. A incompreensão dessa realidade apresentada aqui, no entanto, parece condizer com a nossa própria falta de compreensão do significado da tecnologia em nosso momento presente. Voltarei nesse tema posteriormente.

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É mestrando na UFABC em Filosofia, área que também possui formação como bacharel e licenciado. Pesquisa a relação entre cultura de massa, cinema e política nos autores Siegfried Kracaeur e Walter Benjamin. Quando possível, faz fotografias e vídeos direcionadas para temas da área de Filosofia, a qual é também professor. É educador no projeto Inventar com a Diferença, que trata de cinema e direitos humanos nas escolas. Por fim, estuda Relações Internacionais na UFABC.

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