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Retirante intergaláctico

“Os homens se parecem mais com o seu tempo do que com seus pais”, apregoa o antigo ditado árabe, replicado pelo historiador Marc Bloch.

Por Deni Oliveira

“Os homens se parecem mais com o seu tempo do que com seus pais”, apregoa o antigo ditado árabe, replicado pelo historiador Marc Bloch. O provérbio poderia se passar por legenda de qualquer foto de David Bowie nos anos 70 com sua mãe, Margaret Mary, uma típica inglesa do subúrbio londrino. Acostumada ao chá das cinco e a todos os tradicionais hábitos britânicos, Mary deve ter se chocado com as vestes e os novos costumes que seu filho representava.

À época, Bowie envergava um visual andrógino e confrontador. Enquanto borrava os limites entre as identidades sexuais, o astro investia a cada disco em uma nova persona artística. Na mais famosa delas, o alien Ziggy Stardust chegava a Terra para tentar salvar o planeta da destruição. De olho no novo fenômeno pop, o cineasta Nicolas Roeg convidou Bowie a estrear nas telas na adaptação do romance de Walter Tevis “O Homem que caiu na Terra”.

No longa, o cantor inglês interpreta um papel que lhe caía perfeitamente. Bowie é Thomas Jerome Newton, alienígena oriundo do planeta Anthea recém-chegado ao habitat humano. Se Stardust era um herói destinado a salvar nosso planeta, Newton viaja no espaço para evitar a extinção de sua raça. Aqui ele planeja encontrar meios de acabar com a escassez de água no seu planeta natal ou resgatar os poucos habitantes que sobrevivem por lá.

Emerge como ponto central da trama a dualidade do papel da ciência. Vista ora como panaceia para problemas universais (Newton se torna um bem-sucedido empresário do ramo de patentes tecnológicas com vistas a resolver os problemas do seu planeta), ora como causa da dilapidação dos recursos naturais – no caso, a falta d’água em Anthea.

O personagem de Bowie, dotado de uma inteligência superior, aos poucos sucumbe diante das fraquezas humanas. Consome álcool em excesso e descobre a solidão, enquanto os seus morrem de sede a milhões de anos-luz dali.

Ficam evidentes os limites da ciência e os paradoxos criados pelo seu progresso. Newton, vindo de uma civilização tecnicamente superior que se encontra em um beco sem saída existencial, recorre aos humanos e suas vicissitudes em busca de salvação. Dessa interação, surge um alien brutalizado pela miséria humana e a visão de uma humanidade que torna a tecnologia e a ciência extensões de suas angústias e aflições.

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É editora-chefe da Contemporâneos - Revista de Artes e Humanidades e coordenadora do ContemporARTES. Coordena o grupo de pesquisa do CNPQ LEPCON - Laboratório de Estudos e Pesquisas da Contemporaneidade certificado pela UFABC em parceria com a UFV, UFJF, UFF, UFPA, USS e UFBA. É professora adjunta da UFABC. Pós-doutora em Sociologia pela UNICAMP, doutora em História pela USP com doutorado sanduíche pelo Centro de Estudos de Anti-Semitismo (Universidade Técnica de Berlim). Integrante Permanente da Pós Graduação de Ensino, História e Filosofia da Ciências e da Matemática (UFABC) Autora de Nazismo Tropical (Todas as Musas, 2012), Caça às Suásticas - O partido Nazista em São Paulo (Imprensa Oficial / Humanitas 2007) e outros.

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