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As mulheres em Pessoa

Você sabia que Fernando Pessoa, o grande poeta português do século XX, também criou heterônimos femininos? Confira a seleção de “personalidades” que fizemos a partir da lista organizada por Jerónimo Pizarro e Patricio Ferrari.

Em 2013, com organização de Jerónimo Pizarro, “professor, tradutor, crítico e editor, bem como responsável pela maior parte das novas edições e novas séries de textos de Fernando Pessoa publicadas em Portugal desde 2006” (PIZARRO e FERRARI, 2013, p. 735), e Patricio Ferrari, doutor pela Universidade de Lisboa com a dissertação “Meter and Rhythm in the Poetry of Fernando Pessoa”,  a Tinta da China publicou o livro Eu sou uma antologia – 136 autores ficcionais.

Atualizando e ampliando trabalhos como o da pesquisadora Teresa Rita Lopes, a “lista de 72 dramatis personae”,  de 1990; de Michaël Stoker, “quase duas décadas” depois, em 2009, com “uma nova lista de 83 personagens”; de José Paulo Cavalcanti Filho, em 2011, estendendo o número para 127 nomes, em Fernando Pessoa: uma quase-autobiografia; e mesmo o de Fernando Cabral Martins e Richard Zenith, Teoria da Heteronímia, publicado em 2012, um ano antes da edição preparada por Pizarro e Ferrari, comportando 106 desdobramentos heteronímicos.

Abrindo uma nova série dentro da Caderno de Notas, esse texto surge com o objetivo de apresentar seis personalidades um tanto desconhecidas no universo pessoa: Nympha, Lili, Nympha Negra, Cecilia, Olga Baker (uma possível descendente da famigerada Hannah Baker?) e Maria José.

 

DECODIFICADORAS E COLABORADORAS

Nympha e Nympha Negra, que “terão surgido pela mesma altura” (PIZARRO e FERRARI, 2013, p. 75), assim como Cecilia, eram decodificadoras de charadas e colaboradoras d’O Palrador”, “o segundo jornal fictício criado por Pessoa, do qual se conhecem três dos supostos setes números (1901-1902)” (PIZARRO e FERRARI, 2013, p. 29). Lili era colaboradora d’A Palavra, outro “jornal fictício dirigido por “F. Pessôa (Dr. Pancracio)” (PIZARRO e FERRARI, 2013, p. 69). Muito pouco restou dessas figuras na “Arca”. Os fragmentos, em sua maioria, trazem apenas os enigmas e as assinaturas.

 

PARA GANHAR DINHEIRO

O nome de Olga aparece ao lado de James Bodenham, em um caderno de apontamentos. Uma lista de projetos, seguindo os pesquisadores que organizaram a obra, pode ser atribuída à “autora ficcional”. Seriam eles: 1. O livro do Toilette; 2. O livro da dona de casa; 3. O livro da mãe. Esses títulos são acompanhados por uma nota, “Publicações para ganhar dinheiro”. Além dessas obras, no mesmo pedaço de papel, estavam: 1. Tactica Commercial – O reclame= a apresentação sos artigos = a arte de concorer; 2. Will-power, its nature and development (Força de vontade, a sua natureza e desenvolvimento); 3. The Psychological Bases of Problem-Solvings.

 

O CANTO DO CISNE

Maria José é “autora de uma única carta encimada por um título impessoal, ‘A Carta da Corcunda para o Serralheiro’, e por um traço mais pessoal, a sua assinatura” (PIZARRO e FERRARI, 2013, p. 626). Segundo Pizarro e Ferrari, ela seria “a última máscara”, “o canto do cisne de Pessoa, que de 1930 a 1935 terá convivido sobretudo com o Barão de Teive, com Bernardo Soares e com Alvaro de Campos” (PIZARRO e FERRARI, 2013, p. 626). Para os curiosos e curiosas, segue – na íntegra – a cara de M. José.

 

Senhor António:

 

O senhor nunca há-de ver esta carta, nem eu a hei-de ver segunda vez porque estou tuberculosa, mas eu quero escrever-lhe ainda que o senhor o não saiba, porque se não escrevo abafo.
O senhor não sabe quem eu sou, isto é, sabe mas não sabe a valer. Tem-me visto à janela quando o senhor passa para a oficina e eu olho para si, porque o espero a chegar, e sei a hora que o senhor chega. Deve sempre ter pensado sem importância na corcunda do primeiro andar da casa amarela, mas eu não penso senão em si. Sei que o senhor tem uma amante, que é aquela rapariga loura alta e bonita; eu tenho inveja dela mas não tenho ciúmes de si porque não tenho direito a ter nada, nem mesmo ciúmes. Eu gosto de si porque gosto de si, e tenho pena de não ser outra mulher, com outro corpo e outro feitio, e poder ir à rua e falar consigo ainda que o senhor me não desse razão de nada, mas eu estimava conhecê-lo de falar.
O senhor é tudo quanto me tem valido na minha doença e eu estou-lhe agradecida sem que o senhor o saiba. Eu nunca poderia ter ninguém que gostasse de mim como se gosta das pessoas que têm o corpo de que se pode gostar, mas eu tenho o direito de gostar sem que gostem de mim, e também tenho o direito de chorar, que não se negue a ninguém.
Eu gostava de morrer depois de lhe falar a primeira vez mas nunca terei coragem nem maneiras de lhe falar. Gostava que o senhor soubesse que eu gostava muito de si, mas tenho medo que se o senhor soubesse não se importasse nada, e eu tenho pena já de saber que isso é absolutamente certo antes de saber qualquer coisa, que eu mesmo não vou procurar saber.
Eu sou corcunda desde a nascença e sempre riram de mim. Dizem que todas as corcundas são más, mas eu nunca quis mal a ninguém. Além disso sou doente, e nunca tive alma, por causa da doença, para ter grandes raivas. Tenho dezanove anos e nunca sei para que é que cheguei a ter tanta idade, e doente, e sem ninguém que tivesse pena de mim a não ser por eu ser corcunda, que é o menos, porque é a alma que me dói, e não o corpo, pois a corcunda não faz dor.
Eu até gostava de saber como é a sua vida com a sua amiga, porque como é uma vida que eu nunca posso ter – e agora menos que nem vida tenho – gostava de saber tudo.
Desculpe escrever-lhe tanto sem o conhecer, mas o senhor não vai ler isto, e mesmo que lesse nem sabia que era consigo e não ligava importância em qualquer caso, mas gostaria que pensasse que é triste ser marreca e viver sempre so à janela, e ter mãe e irmãs que gostam da gente mas sem ninguém que goste de nós, porque tudo isso é natural e é a família, e o que faltava é que nem isso houvesse para uma boneca com os ossos às avessas como eu sou, como eu já ouvi dizer.
Houve um dia que o senhor vinha para a oficina e um gato se pegou à pancada com um cão aqui defronte da janela, e todos estivemos a ver, e o senhor parou, ao pé do Manuel das Barbas, na esquina do barbeiro, e depois olhou para mim para a janela, e viu-me a rir e riu também para mim, e essa foi a única vez que o senhor esteve a sós comigo, por assim dizer, que isso nunca poderia eu esperar.
Tantas vezes, o senhor não imagina, andei à espera que houvesse outra coisa qualquer na rua quando o senhor passasse e eu pudesse outra vez ver o senhor a ver e talvez olhasse para mim e eu pudesse olhar para si e ver os seus olhos a direito para os meus.
Mas eu não consigo nada do que quero, nasci já assim, e até tenho que estar em cima de um estrado para poder estar à altura da janela. Passo todo o dia a ver ilustrações e revistas de modas que emprestam à minha mãe, e estou sempre a pensar noutra coisa, tanto que quando me perguntam como era aquela saia ou quem é que estava no retrato onde está a Rainha de Inglaterra, eu às vezes me envergonha de não saber, porque estive a ver coisas que não podem ser e que eu não posso deixar que me entrem na cabeça e me dêem alegria para eu depois ainda por cima ter vontade de chorar.
Depois todos me desculpam, e acham que sou tonta, mas não me julgam parva, porque ninguém julga isso, e eu chego a não ter pena da desculpa, porque assim não tenho que explicar porque é que estive distraída.
Ainda me lembro daquele dia que o senhor passou aqui ao Domingo com o fato azul claro. Não era azul claro, mas era uma sarja muito clara para o azul escuro que costuma ser. O senhor ia que parecia o próprio dia que estava lindo e eu nunca tive tanta inveja de toda a gente como nesse dia. Mas não tive inveja da sua amiga, a não ser que o senhor não fosse ter com ela mas com outra qualquer, porque eu não pensei senão em si, e foi por isso que invejei toda a gente, o que não percebo mas o certo é que é verdade.
Não é por ser corcunda que estou aqui sempre à janela, mas é que ainda por cima tenho uma espécie de reumatismo nas pernas e não me posso mexer, e assim estou como se fosse paralítica, o que é uma maçada para todos cá em casa e eu sinto ter que ser toda a gente a aturar-me e a ter que me aceitar que o senhor não imagina. Eu às vezes dá-me um desespero como se me pudesse atirar da janela abaixo, mas eu que figura teria a cair da janela? Até quem me visse cair ria e a janela é tão baixa que eu nem morreria, mas era ainda mais maçada para os outros, e estou a ver-me na rua como uma macaca, com as pernas à vela e a corcunda a sair pela blusa e toda a gente a querer ter pena mas a ter nojo ao mesmo tempo ou a rir se calhasse, porque a gente é como é não como tinha vontade de ser.

… e enfim porque lhe estou eu a escrever se lhe não vou mandar esta carta?

 

O senhor que anda de um lado para o outro não sabe qual é o peso de a gente não ser ninguém. Eu estou à janela todo o dia e vejo toda a gente passar de um lado para o outro e ter um modo de vida e gozar e falar a esta e àquela, e parece que sou um vaso com uma planta murcha que ficou aqui à janela por tirar de lá.
O senhor não pode imaginar, porque é bonito e tem saúde o que é a gente ter nascido e não ser gente, e ver nos jornais o que as pessoas fazem, e uns são ministros e andam de um lado para o outro a visitar todas as terras, e outros estão na vida da sociedade e casam e têm baptizados e estão doentes e fazem-lhe operações os mesmos médicos, e outros partem para as suas casas aqui e ali, e outros roubam e outros queixam-se, e uns fazem grandes crimes e há artigos assinados por outros e retratos e anúncios com os nomes dos homens que vão comprar as modas ao estrangeiro, e tudo isto o senhor não imagina o que é para quem é um trapo como eu que ficou no parapeito da janela de limpar o sinal redondo dos vasos quando a pintura é fresca por causa da água.
Se o senhor soubesse isto tudo era capaz de de vez em quando me dizer adeus da rua, e eu gostava de se lhe poder pedir isso, porque o senhor não imagina, eu talvez não vivesse mais, que pouco é o que tenho de viver, mas eu ia mais feliz lá para onde se vai se soubesse que o senhor me dava os bons dias por acaso.
A Margarida costureira diz que lhe falou uma vez, que lhe falou torto porque o senhor se meteu com ela na rua aqui ao lado, e essa vez é que eu senti inveja a valer, eu confesso porque não lhe quero mentir, senti inveja porque meter-se alguém connosco é a gente ser mulher, e eu não sou mulher nem homem, porque ninguém acha que eu sou nada a não ser uma espécie de gente que está para aqui a encher o vão da janela e a aborrecer tudo que me vê, valha-me Deus.
O António (é o mesmo nome que o seu, mas que diferença!) o António da oficina de automóveis disse uma vez a meu pai que toda a gente deve produzir qualquer coisa, que sem isso não há direito a viver, que quem não trabalha não come e não há direito a haver quem não trabalhe. E eu pensei que faço eu no mundo, que não faço nada senão estar à janela com toda a gente a mexer-se de um lado para o outro, sem ser paralítica, e tendo maneira de encontrar as pessoas de quem gosta, e depois poderia produzir à vontade o que fosse preciso porque tinha gosto para isso.
Adeus senhor Antonio, eu não tenho senão dias de vida e escrevo esta carta só para a guardar no peito como se fosse uma carta que o senhor me escrevesse em vez de eu a escrever a si. Eu desejo que o senhor tenha todas as felicidades que possa desejar e que nunca saiba de mim para não rir porque eu sei que não posso esperar mais.
Eu amo o senhor com toda a minha alma e toda a minha vida. Aí tem e estou a chorar.

 

Maria José

REFERÊNCIA: PIZARRO, Jerónimo; FERRARI, Patricio (Org). Eu sou uma antologia – 136 autores ficcionais. Lisboa: Tinta da China, 2013.

 

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Lucca Tartaglia é doutorando em Letras Vernáculas, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, possui mestrado em Letras (Estudos Literários) pelo programa de pós-graduação da Universidade Federal de Viçosa (2014) e graduação em Letras (Língua Portuguesa / Literaturas de Língua Portuguesa) pela mesma instituição (2013). É colaborador, como membro estudante, do Núcleo de Estudos Portugueses (NEP) - atuando na linha de pesquisa Literatura, Cultura e Sociedade - e, como pesquisador, no grupo Formação de Professores de Línguas e Literatura (FORPROLL), linha de pesquisa Estudos de cultura, linguagens e suas manifestações, ambos vinculados ao CNPq.

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