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A ciência e a bola

Como os avanços da fisiologia e da preparação física tornaram possível a revolução tática da seleção holandesa na Copa de 74.

Como os avanços da fisiologia e da preparação física tornaram possível a revolução tática da seleção holandesa na Copa de 74
Por Deni Oliveira

Prólogo

Era 1970, final da Copa daquele ano, quando Pelé, em seu último mundial, dominou a bola pouco à frente da intermediária, quase na meia-lua da grande área. Como se possuísse olhos nas costas, sua majestade rolou a bola num passe diagonal para um ponto aparentemente vazio. Eis que, num milionésimo de segundo, surge Carlos Alberto Torres correndo para não desperdiçar o passe do Rei.

Por acaso, a bola resvala num pequeno aclive, elevando-se pouco centímetros antes de ser atingida com violência pelo lateral-direito e estufar as redes. Gol! Gol do Brasil! A seleção canarinho selava a conquista do tricampeonato com aquele tento, o quarto da vitória de 4 a 1 sobre a Itália. Foi a assinatura perfeita para o epílogo daquela jornada, que marcava não só o brilhantismo daquela geração incrível de jogadores, mas também assinalava o fim de uma era do esporte mais popular do mundo.

Hoje sabemos: aquele gol foi a síntese de um modo de jogar, o futebol-arte, quase extinto nos dias atuais. Nele estão evidentes todas as características pelas quais os brasileiros ficaram conhecidos nos gramados – criatividade, velocidade de raciocínio, destreza para o drible em pequenos espaços etc. Antes do passe miraculoso de Pelé, Clodoaldo dominara a bola no campo de defesa, ludibriado quatro italianos numa sequência de dribles impressionantes e fez a bola avançar para escrever com os pés umas das páginas mais emocionantes do esporte mundial.

Quatro anos depois daquela Copa ensolarada disputada nos gramados mexicanos, não foi apenas a ausência de Pelé que se fez presente. Faltou ao Brasil aquilo que o cineasta italiano Pier Paolo Pasolini havia classificado como futebol de poesia depois de ver a sua seleção ser destroçada por Tostão, Jairzinho e companhia. Para Pasolini, havia então uma clara oposição entre o futebol praticado pelos brasileiros – análogo à construção de um poema – e a disposição tática dos europeus, similar ao ritmo da prosa.

De acordo com o cineasta, o drible brasileiro surgia como se fosse um verso, na forma de um corte seco e desconcertante em uma estrutura previamente definida. Ao passo que o estilo europeu concatenava passes e lançamentos até a meta adversária de modo progressivo, como uma narrativa em prosa.

A Copa de 74 e a seleção Holandesa

Na Copa de 1974, porém, a metáfora literária de Pasolini tornara-se precocemente obsoleta. Os brasileiros, apáticos, pareciam surpreendentemente cooptados pela prosa europeia. Faltava a “magia” e o encanto da copa anterior. Mesmo os remanescentes do mítico escrete de 70 – caso de Rivellino e Jairzinho – não demonstraram o talento de outrora. Há mundiais em que pouca coisa acontece e outros em que quase tudo ocorre, como se muitos campeonatos fossem disputados em um só. Foi o caso daquela primeira copa disputada na Alemanha.

Havia um Brasil se digladiando internamente entre a tradição do jogo vistoso e a modernidade das concepções táticas defensivistas; a Alemanha, quase trinta anos depois do traumático fim da Segunda Guerra Mundial, disposta a mostrar uma nova face ao mundo dentro e fora de campo; e um grupo de jogadores holandeses, ainda não muito famoso, que mudaria para sempre o modo como enxergamos o futebol e o esporte de um modo geral.

Antes de travarmos contato diariamente com o futebol globalizado via TV a cabo, internet e demais meios de comunicação, as copas serviam como uma espécie de grande workshop internacional de futebolistas. Era o momento de vermos a quantas andava o esporte bretão ao redor do mundo. Os cronistas surpreendiam-se com os novos esquemas defensivos dos times da Europa Ocidental, com o novo modo de bater faltas dos suecos e da forma como os sul-americanos repunham a bola em campo etc.

Mas paralelamente às concepções mais comezinhas das disputa, a ciência e a tecnologia avançavam e faziam sentir seus impactos dentro de campo, permitindo traçar uma estreita relação entre estas áreas do saber humano e o futebol, tema deste ensaio. De repente, os jogadores pareciam mais vigorosos, a disposição tática dos atletas mudava radicalmente e o espaço das pelejas parecia subitamente menor.

Nenhuma equipe naquela paradigmática Copa do Mundo tematizou tão bem as novas nuances do futebol – totalmente tributárias do avanço científico – como a seleção da Holanda. Comandada por Rinus Michels, técnico estrategista oriundo do Ajax, a Holanda chegou àquela Copa disposta a desbancar as potências estabelecidas com uma forma de jogar extremamente agressiva.

Michels era um dos expoentes do chamado futebol científico, tradição futebolística nascida na antiga União Soviética que preconizava a necessidade do uso de uma abordagem das táticas levadas a campo com lastro em dados e estatísticas. Valeri Lobanovsky foi o entusiasta mais famoso desse modo de jogar. À frente do Dínamo de Kiev, ele criou um sistema que atribuía valores numéricos a cada ação executada individualmente, fazendo com que cientistas analisassem passes, desarmes e chutes de cada atleta. Os dados alimentavam um computador que avaliava os jogadores em critérios como intensidade, atividade, taxa de erros e efetividade.

Desde meados dos anos 50, acelerava-se a colaboração entre ciência e futebol. Essa combinação esteve calcada em alguns temas, com vistas a otimizar o desempenho físico e técnico dos atletas: fisiologia do exercício, medicina esportiva e psicologia, além de todo o aparato tecnológico que rodeia o mundo do esporte e transformou o futebol à medida que o mundo da ciência também mudava.

O impacto da ciência na revolução tática holandesa, um debate interdisciplinar

No trabalho que pretendo empreender sobre os ecos do avanço científico na revolução tática da Holanda de 74, entrelaçarei as temáticas listadas acima num esforço para contemplar a interdisciplinaridade pretendida pelos historiadores da Escola dos Annales, que serve de base teórica para este ensaio.

A corrente de pensamento defendida pelos membros da Annales repudiava a historiografia meramente linear. De acordo com Lilia Moritz Schwarcz, na apresentação da edição brasileira do livro “Apologia da História, de Marc Bloch, “Bloch reconheceu a importância da interdisciplinaridade e de revestir a prática da história de questões de fôlego mais amplo e afeitas a durações mais longas”.

Portanto, nos parágrafos que seguem, estabeleceremos uma relação de causa e efeito entre os avanços científicos, representados pela fisiologia do esporte, e a revolução tática da Holanda de 74. Mas, ao modo de Bloch, essa relação não ocorrerá de maneira simplista. Problematizaremos a questão, citando aspectos dos avanços da época que possibilitaram o uso de novas táticas esportivas sem recorrer a estereótipos ou fabulações anedóticas tão típicas dos historiadores positivistas.

A fisiologia do exercício, ramo derivado da Biologia que estuda a adaptação da ampla gama de condições aperfeiçoadas pelo exercício físico, apresentava grande avanços mundo afora na década de 1970. O número de laboratórios dedicados a estudar o assunto deu um salto gigantesco entre os anos de 1950 e 1970. Os graduandos formados nesses centros de estudo foram responsáveis pelo crescimento da produtividade na pesquisa e do número de revistas de pesquisas e de sociedades profissionais voltadas para a então incipiente área de estudo.

Extrair dos atletas o melhor desempenho físico possível sem causar danos à saúde era a principal aplicabilidade da fisiologia no mundo esportivo. Esse crescimento vertiginoso do estudo do assunto explica em partes o vigor físico com o qual os holandeses se entregavam ao jogo naquele mundial. A tática da linha do impedimento arquitetada por Michels, recurso no qual a defesa avançava alinhada para deixar o ataque adversário em impedimento, exigia não só inteligência tática, mas também um intenso trabalho físico.

Outro recurso tático firmemente calcado na excelência física era a chamada “marcação pressão”. Todos os jogadores holandeses pressionavam o adversário no campo de defesa deste, a fim de tomar-lhe a bola e partir em direção ao gol. Essa prática alterou a praxe da época, que era esperar a bola chegar à intermediária ou mesmo ao próprio campo de defesa para iniciar a ofensiva. Ocioso dizer que tal atitude demandava um preparo físico apurado, já que os jogadores, a partir dali, deveriam percorrer distâncias maiores. Tornaram-se comuns no mundial de 74 verdadeiros levantes holandeses dentro de campo, em que os dez jogadores de linha partiam em direção à bola.

“Mas se o estilo de jogo holandês exigia mais do físico dos atletas, as lesões se tornaram mais frequentes?”, poderia questionar quem se depara pela primeira vez com o tema. A resposta é negativa, no entanto. Embora utilizasse um estilo de marcação e de ataque que demandava esforços físicos maiores, não há nenhuma razão para suspeitar que holandeses se machucaram mais durante a copa que os jogadores de outras seleções.

Isso se deve em boa parte também aos avanços da medicina esportiva. Se fosse exigido dos atletas um desempenho descomunal sem o devido acompanhamento dos conhecimentos empreendidos para mitigar as contusões físicas, todo esse avanço da época seria inócuo e a Holanda de 74 não teria existido. Porém, a partir daquela época, problemas no joelho, como a que afetara a carreira de Garrincha uma década antes, deixaram de assombrar jogadores de todo o mundo.

Cirurgias no menisco passaram a representar esperança para atletas que em outra época não teriam outra opção senão encerrar a carreira. Técnicas de reforço muscular também impediam o surgimento ou recidivas das contusões. Resultado: jogadores mais vigorosos em campos e com a perspectiva de uma carreira mais longeva.

O acompanhamento psicológico, assim como em todas as áreas profissionais, exerce papel fundamental no desempenho atlético em qualquer esporte. No entanto, embora perfis psicológicos fossem traçados há décadas no futebol, seria incorreto afirmar que houve um preponderante impacto dessa ciência na revolução tática de 1974. De todo modo, cumpre ressaltar que a seleção holandesa era constituída fundamentalmente por jogadores de Roterdã e Amsterdã, oriundos, respectivamente, do Feyenoord e Ajax.

Eram dois grupos que detinham culturas táticas distintas e travavam lutas internas pela hegemonia do grupo. Embora não haja informações sobre a presença de um psicólogo na comissão técnica de Michels, é evidente que o técnico teve de gerenciar o grupo de modo a harmonizar as contradições e dirimir as diferenças culturais em prol do bem comum.

Nesse aspecto, retrabalhamos conceitos e abordagens levantados por Jacques Le Goff, que dizia trabalhar em algo próximo à “antropologia histórica”. Ou seja, ao abordar conceitos que associam de algum modo as origens geográficas dos atletas aos seus perfis psicológicos, retomamos o conceito de História Total estabelecido por Le Goff.

“Toda forma de história nova – que se manifesta como tal – que se abriga sob o estandarte de uma etiqueta aparentemente parcial ou setorial, quer se trate da história sociológica de Paul Veyne ou da história psicanalítica de Alain Besançon, é na verdade uma tentativa de história total, hipótese global de explicação das sociedades grega e romana da Antiguidade ou da Rússia do século XIX, e até mesmo do século XX”, assinalou o historiador francês.

Erros e virtudes, avanços e recuos

A relação entre o avanço científico alcançado na fisiologia do exercício e do condicionamento físico nos anos 70 e a revolução tática efetuada pela seleção da Holanda de 74 é, como toda e qualquer história, tortuosa e repleta de avanços e recuos. O time formado por Rinus Michels e comandado por Johan Cruyff dentro de campo não surgiu como um raio em dia de céu azul. Houve diversos antecessores que, com seus acertos e erros, contribuíram para aquela que ficou conhecida como a maior revolução tática do futebol mundial.

O já citado Valeri Lobanovsky foi um dos contemporâneos de Michels responsáveis por lançar algumas das bases das inovações que estavam por vir. O estilo de jogo vertiginoso e ofensivo, que parecia sufocar os adversários, também não foi criado apenas por Michels. Vinte anos antes, ainda que num grau menor – já que a ciência ligada ao esporte não estava em grau muito avançado -, a Hungria, do craque Ferenc Puskás, encantou o mundo, jogando de modo intenso e espetacular.

Devemos, portanto, evitar aqui traçar uma linha de constante evolução futebolística. A ciência, embora tenha óbvios efeitos positivos no campo esportivo, também incorreu em graves equívocos. Em 1958, por exemplo, uma abjeta análise do perfil psicológico dos jogadores brasileiros que foram à Copa da Suécia, classificava os jogadores negros como emocionalmente instáveis. Coincidência ou não, Garrincha iniciou aquele mundial no banco de reservas.

Quando ele e Pelé ascenderam ao time titular, encontraram pela frente o futebol de laboratório soviético. Embora o abastecimento de dados e estatísticas auxilie de modo crescente o trabalho tático de times e seleções, essa estratégia se mostrou incapaz de parar os dois gênios brasileiros. Ou seja, por mais que qualquer atividade humana esteja amparada na ciência, continua impossível prever totalmente os efeitos da criatividade humana.

Ainda que o pioneirismo de Michels e Cruyff deva ser destacado, é importante evitar traçar uma história apologética, rechaçando a ideia de gênio fundador atribuída aos holandeses. Torna-se necessários filiá-los a uma longa tradição de precursores de táticas inovadoras que, com progressos e retrocessos, acertos e erros, fizeram o esporte progredir. Impossível falar de Michels sem lembrar que ele foi tributário dos métodos de Vittorio Pozzo, Yustrich e Zagallo, para ficarmos apenas em alguns exemplos paradigmáticos.

As várias formas de buscar o gol – considerações finais

O rápido avanço da fisiologia do exercício aliado à medicina esportiva de ponta permitiu à Holanda revolucionar a tática do futebol por meio de um jogo vigoroso, ofensivo e destemido. Os jogadores passaram a correr mais, encurtando os espaços do adversário, e se machucavam menos, melhorando o desempenho em campo.

Michels foi um grande inovador sem dúvida, mas apoiou-se no ombro de gigantes estrategistas que o precederam. Vale ressaltar ainda que a ciência, mesmo exercendo papel fundamental, não varreu o homem da história. Sua capacidade de improvisar no esporte, nas artes ou na vida segue como centelha motriz de todo esforço criativo. O mundo gira, a bola rola e é para frente – ainda que num caminho cheio de percalços – que se anda.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABRANTES, P. Problemas Metodológicos em Historiografia da Ciência. Epistemologia e Ensino de Ciências. Salvador: Arcadia, 2002. p. 51-91.

BETING, M. A Holanda de 1974. As Melhores Seleções Estrangeiras de Todos os Tempo: Contexto, 2010. p. 73-107.

BLOCH, M. A observação histórica. Apologia da História ou O Ofício de Historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002. p. 69-87.

FOER, J. Como o futebol explica o mundo. Rio de Janeiro Zahar, 2005.

WISNIK, J. Veneno Remédio: o futebol e o Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2008

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É editora-chefe da Contemporâneos - Revista de Artes e Humanidades e coordenadora do ContemporARTES. Coordena o grupo de pesquisa do CNPQ LEPCON - Laboratório de Estudos e Pesquisas da Contemporaneidade certificado pela UFABC em parceria com a UFV, UFJF, UFF, UFPA, USS e UFBA. É professora adjunta da UFABC. Pós-doutora em Sociologia pela UNICAMP, doutora em História pela USP com doutorado sanduíche pelo Centro de Estudos de Anti-Semitismo (Universidade Técnica de Berlim). Integrante Permanente da Pós Graduação de Ensino, História e Filosofia da Ciências e da Matemática (UFABC) Autora de Nazismo Tropical (Todas as Musas, 2012), Caça às Suásticas - O partido Nazista em São Paulo (Imprensa Oficial / Humanitas 2007) e outros.

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