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Um bilhete na calçada

Na última quarta-feira, ao chegar na rodoviária Novo Rio (RJ), encontrei – perto da entrada – um bilhete “improvável”, amassado e pouco legível, que continha – supostamente – o recado de “um pai” para “um filho”.

Na última quarta-feira, ao chegar na rodoviária Novo Rio (RJ), encontrei – perto da entrada – um bilhete “improvável”, amassado e pouco legível, que continha – supostamente – o recado de “um pai” para “um filho”. Como não consegui entender muita coisa e não pretendo invadir a privacidade dos envolvidos – por mais que me parece impossível localizá-los – decidi transcrever apenas algumas partes. Segue:


Laertes,

Há, nos livros que deixei, entre as páginas e no revês das capas, nas margens e nas laterais, algumas notas, apontamentos e considerações sobre os mais diversos assuntos. A nossa biblioteca será – caso queira – a sua Fortaleza da Solidão. Não sei quantos anos você tem agora, filho, mas sei que entenderá a referência. Eu e sua mãe te amamos muito, mais do que você, ainda enquanto filho, pode supor. Muitas coisas ficaram sem explicação, mas é chegada a hora de você saber. Se quiser uma sugestão – um “bizu”, como seu avô costumava dizer – comece pela “História da literatura ocidental”, do Otto Maria Carpeaux, e dê uma atenção especial a”Os trabalhos e os dias”, do Hesíodo. Na 3C, você encontrará um volume bem conservado com tradução, introdução e notas de Alessandro Rolim de Moura.

Não tenha pressa, levará alguns meses; talvez, a depender do seu tempo e esforço, alguns anos. Tome muito cuidado, não comente com ninguém sobre essa carta e tente manter a calma. Algumas descobertas poderão te desestabilizar, mas, acredite em mim, tudo fará sentido. Desculpe se não pude facilitar as coisas. Bom, vai e trata de guardar – na raiz do espírito e na superfície da carne – estes poucos conselhos:

1. Não dá voz ao que pensares, nem transforma em ação um pensamento tolo;

[…]

3. Os amigos que tenhas, já postos à prova, prende-os na tua alma com grampos de aço; mas não caleja a mão festejando qualquer galinho implume mal saído do ovo;

4. Procura não entrar em nenhuma briga; mas, entrando, encurrala o medo no inimigo;

4. Empresta o teu ouvido a muitos e tua voz a poucos;

5. Acolhe a opinião de todos, mas, ao fim, você decide.

[…]

7. Não empreste nem peça emprestado: quem empresta perde o amigo e o dinheiro; quem pede emprestado já perdeu o controle de sua economia.

8. Seja fiel a ti mesmo e jamais serás falso com ninguém.

[…] Que minha bênção faça estes conselhos frutificarem e que os frutos, no futuro, possam servir de alimento aos que têm fome. […]

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Lucca Tartaglia é doutorando em Letras Vernáculas, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, possui mestrado em Letras (Estudos Literários) pelo programa de pós-graduação da Universidade Federal de Viçosa (2014) e graduação em Letras (Língua Portuguesa / Literaturas de Língua Portuguesa) pela mesma instituição (2013). É colaborador, como membro estudante, do Núcleo de Estudos Portugueses (NEP) - atuando na linha de pesquisa Literatura, Cultura e Sociedade - e, como pesquisador, no grupo Formação de Professores de Línguas e Literatura (FORPROLL), linha de pesquisa Estudos de cultura, linguagens e suas manifestações, ambos vinculados ao CNPq.

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