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Kracauer e Hitchcock: sobre uma interpretação da cultura de massa

Tanto o filme de Hitchcock como o ensaio de Kracauer se baseiam nos espetáculos internacionais em voga na Alemanha da República de Weimar: a apresentação das Tillergirls.

O lugar que uma época ocupa no processo histórico pode ser

determinado de modo muito mais pertinente a partir da análise de

suas discretas manifestações de superfície do que dos juízos da época

sobre si mesma.

Siegfried Kracauer, O ornamento da massa (1927)

O ensaio “O ornamento da massa” (1927) de Kracauer e o primeiro filme de Alfred Hitchcock como diretor “O jardim dos prazeres” (1925) possuem não somente uma aproximação cronológica, mas temática sobre um período histórico de desenvolvimento da cultura de massa. Colocando as duas obras em diálogo podemos tirar conclusões sobre uma visão interpretativa da indústria cultural.

Tanto o filme de Hitchcock como o ensaio de Kracauer se baseiam nos espetáculos internacionais em voga na Alemanha da República de Weimar: a apresentação das Tillergirls. Tratava-se de uma apresentação de dançarinas em grandes teatros que se baseava no movimento em sincronização perfeita, de modo que se formavam linhas e formas que encantavam o público.

No filme de Hitchcock o enredo se inicia com uma dançarina do teatro Pleasure Garden, Patsy, que consegue lugar no palco para Jill, uma moça que acabara de chegar na cidade em busca de emprego como dançarina. Jill encanta o dono do teatro e acaba virando uma grande estrela que vive na boemia, desprezando seu antigo noivo Hugh e sua amiga Patsy. Hichcock participou dessa produção anglo-germânica, e capturou de certo modo o momento auge do fenômeno das dançarinas no estilo Tillergirls na Alemanha, demonstrando já uma de suas maiores genialidades: a relação com o público a partir do drama.

Cena do filme:  O jardim dos prazeres (Hitchcock, 1925).

Diferentemente do mestre da sétima arte, Kracauer foi um crítico de cinema, cientista social e filósofo que se preocupou em grande parte de seu trabalho com questões que orbitavam em torno da Escola de Frankfurt, mesmo antes dela se consolidar no âmbito da famosa crítica à indústria cultural com a publicação de Dialética do Esclarecimento (1944) de Adorno e Horkheimer.

No ensaio referido anteriormente Kracauer estabelece uma relação complexa entre a cultura de massa e os espetáculos das Tillergirls. Através do encantamento do público pelo movimento das dançarinas de forma totalmente simétrica e sincronizada, o que chama a atenção do autor é a formação de uma figura como ornamento em que a própria massa espectadora se reconhece.  O espetáculo de massa funciona como um espelho da própria sociedade: em meio ao trabalho segmentado pelo sistema taylorista, cada trabalhador exerce uma função sem saber o todo do processo em que se encontra, mas se insere dentro de um sistema de forma que possa ser abstraído. Assim também cada dançarina do grupo das Tillergirls se comportam, pois não é cada girl que se destaca por seu talento individual, mas a abstração do indivíduo frente ao movimento que cria um ornamento para as massas.

Esse reconhecimento entre a massa espectadora e o espetáculo em si é o que determina um interesse de Kracauer em analisar a cultura de massa para tirar conclusões sobre a vida social e política de uma época. De um modo um tanto parecido podemos ver como Hitchcock se consolidou como o diretor que soube interpretar o gosto do público e captar através do suspense os prazeres mais obscuros de um espectador de cinema.

No filme “O jardim dos prazeres” a história parece ilustrar o que Kracauer aponta sobre o espetáculo e as massas. A dançarina Jill, que conseguiu um lugar de destaque no grupo de dança, não consegue seguir os valores sociais tidos como corretos, dado que abandona seu noivo simples e passa a viver uma vida devassa a partir da fama. É como se Jill não se conectasse mais com a massa assalariada dos grandes centros, justamente por não ser mais uma dançarina anônima do grupo e por não ser mais abstraída como um número no sistema.

O desfecho do filme completa seu significado como obra da cultura de massa. Tal como todo happy ending o gosto por manter o status quo da sociedade é posto. Patsy, a dançarina que ainda vive no anonimato das Tillergirls, é enganada por seu marido que em meio a uma viagem de trabalho aos trópicos a trai com uma “nativa”. Patsy recebe uma carta dele dizendo precisar de dinheiro por estar doente, mas ao invés de mandar dinheiro viaja até onde ele se encontra para ver se está tudo bem e se depara com sua traição. Decide então a separação. Seu marido enlouquece, mata sua amante e ao tentar matar Patsy toma um tiro de um médico local. O médico cuidava de Hugh o noivo que Jill abandonou para viver na “gandaia”. E assim, Patsy se apaixona por Hugh. Os dois personagens que sempre acreditaram no amor romântico e na vida comum nas massas acabam ficando juntos, como dizem nos filmes: felizes para sempre.

O filme, assim como o espetáculo das Tillergirls, representa a própria massa. Desse modo não consegue ir além do gosto do público, nem mesmo mobilizá-lo para uma revolução através da experiência estética. O ornamento criado pela massa é o ornamento que nela já existe e que se mantém preso por uma tensão inerente ao sistema. Cabe pensarmos em como interpretar a nossa época a partir das nossas manifestações de superfície na cultura de massa e a inserirmos no nosso próprio processo histórico pelo movimento da razão: “Então a sociedade se transformará. E assim também o ornamento da massa desaparecerá e a vida humana assumirá por si só os traços do ornamento tal como este exprime nos contos de fadas, em face da verdade” (KRACAUER, S. O ornamento da massa, p. 103).

Filme:  O jardim dos prazeres (Hitchcock, 1925).

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É mestrando na UFABC em Filosofia, área que também possui formação como bacharel e licenciado. Pesquisa a relação entre cultura de massa, cinema e política nos autores Siegfried Kracaeur e Walter Benjamin. Quando possível, faz fotografias e vídeos direcionadas para temas da área de Filosofia, a qual é também professor. É educador no projeto Inventar com a Diferença, que trata de cinema e direitos humanos nas escolas. Por fim, estuda Relações Internacionais na UFABC.

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