Apresentação

Na seção “Artefato” irei abordar temas nos campos da História da Arte, Crítica de Arte, Curadoria e bens culturais, trazendo resenhas de exposições e sobre visitas a instituições culturais em São Paulo.

Bem vindos, amigos leitores da Contemporartes!

É uma honra poder voltar a escrever na coluna da Revista Contemporartes após ter me desligado dela há quatro anos. Volto a contribuir na publicação com fôlego renovado na seção “Artefato”, onde irei abordar temas nos campos da História da Arte, Crítica de Arte, Curadoria e bens culturais, trazendo resenhas de exposições e sobre visitas a instituições culturais em São Paulo.

 

Hoje vou aguçar a curiosidade de nosso público fazendo leituras sobre a imagem escolhida para o logo de nossa coluna, e assim convidá-lo para uma viagem no universo iconográfico dos museus e coleções.

“Toda Paixão beira ao caos,
a do colecionador beira
o caos da memória”

Walter Benjamin,
“Ich packe meine Bibliothek aus”

Giovanni Paolo Pannini, Galleria de Pinturas com vistas da Roma Moderna, 1957, óleo sobre tela, Metropolitan Museum, Nova Iorque.

– O que vemos?

A cena nos remete a uma ampla galeria abarrotada de pinturas, onde também vemos algumas estatuárias antigas, provavelmente esculturas greco-romanas e renascentistas, também estruturam a coomposição robustas, solenes e longilíneas colunas com capitéis coríntios. As telas compõem um mosaico, uma miríade de imagens, como portais que absorvem nossos olhares e nos reportam para cenários familiares, paisagens de um passado remoto e esplendoroso, ruínas antigas de tempos gloriosos da História da Civilização Ocidental. Sim, da Civilização Ocidental!

Esta imagem faz um elogio à tradição cultural construída desde os antigos gregos e romanos até os tempos das Luzes, em que se acreditava que a racionalidade purgaria a humanidade das perversidades, fruto da ignorância.

Também vemos alguns personagens na pitoresca cena. Quase que numa posição central na obra, vemos um grupo de três personagens, que espantados e maravilhados, admiram o amontoado de belezas criadas pela inventividade e engenhosidade das mãos dos artistas que as criaram. Este aspecto desta narrativa pictórica evoca um dado relevante da própria história da cultura, a criação de coleções privadas que originaram os museus. Um pouco à esquerda do grupo de figuras centrais, observamos mais um personagem, compenetrado a esboçar um estudo de uma obra segurada por outro indivíduo, à direita na cena, ou mesmo a inventar os numerosos objetos.

A paisagem descrita é uma criação imaginária do pintor de “veduta” (pinturas de vistas de locais ou cidades), Giovanni Paolo Pannini.

Pannini, prolífico pintor italiano, nasceu em Piacenza e estudou na escola de projetistas cênicos de Bolonha, possivelmente com algum membro da familia Galli-Bibiena (arquitetos, quadraturistas e cenógrafos, que exerceram suas atividades de cerca de 1680 a cerca de 1780 em praticamente todos os países europeus). Em 1711, quando já estava em Roma, tornou-se o principal pintor de vistas reais e imaginárias daquela cidade. Foi pioneiro em dar especial destaque às ruínas – característica de sua pintura que o aproxima a Piranesi e a Hubert Robert. Também dedicava-se a composições de imagens de festividades públicas e ao gênero de pinturas históricas. Lecionou perspectiva na Academia Francesa, fundada por Nicolas Poussin em Roma, tendo exercido ampla influência em pintores italianos e franceses. Muitas coleções possuem obras de sua autoria.

Capitéis de diferentes ordens arquitetônicas

A cena da obra de Pannini narra uma prática viva em nossos dias e que historicamente pode dar origem às instituições museológicas.

O colecionismo, a prática de colecionar coisas, ligou-se, desde o início, à ideia de posse que, por sua vez, gerou o conceito de propriedade. Possuir objetos tornou-se manifestação de poder. O valor material dos objetos é transposto pelo simbólico. Assim, a coleção foi ultrapassando sua funcionalidade e tornando mais evidente seu aspecto simbólico.

Na antiguidade, as grandes coleções estão ligadas aos senhores, reis e imperadores, mas são paralelas ao desejo das culturas de conservar, para o futuro, seu patrimônio. As gerações humanas foram moldadas pelas que as antecederam ou com elas conviveram. São culturalizadas por intermédio de um lastro cultural preexistente. Assim, forma-se um elo de continuidade mutável, baseado no fato de que o homem aprende a viver e pode aprender a viver melhor.

Segundo David Murray, “(…) Gradualmente, a palavra Museu foi sendo adotada como termo técnico para designar uma coleção de objetos de arte, de monumentos da antiguidade, ou de espécies da história natural, mineralogia e assemelhados, e de modo geral, daquilo que era conhecido como raridades e curiosidade.” As primeiras coleções particulares, cujo conceito de existência leva ao ideal do que hoje chamamos de museus, eram chamadas de “Gabinetes de Curiosidades”, e surgiram no século XVII na Europa. Tratava de uma coleção de objetos, pelos quais se podia conceber um microcosmo do conhecimento universal, categorizado conforme o pensamento medievo, usualmente classificando-se os objetos nos seguintes agrupamentos:

  • NATURALIA (História Natural: Pedras, plantas,coleções botânicas, coleções zoológicas, homem)
  • ARTIFICIALIA (Galerias de Arte)
  • MIRABILIA (Bestiários: fenômenos naturais, aberrações)

Gravura, Gabinete do boticário Ferrante Imperato (1521-1609) de “Dell’historia Naturale”.

Domenico Remps, Pequeno Gabinete de Curiosidades, segunda metade do século XVII, Museo dell’Opificio delle Pietre Dure, Florence.

O museu, como o conhecemos hoje, símbolo e guardião do patrimônio, reunindo artefatos da nossa memória, partícipe da transmissão de conhecimentos e reflexo da nossa identidade, começou a ser gestado na Idade Média quando a Igreja reuniu grandes coleções.

O Renascimento italiano, com o humanismo e a investigação dos testemunhos da arte clássica e permitiu, se não a criação do conceito de museu moderno, pelo menos o precedente histórico mais relevante.

O termo museu começou a ser utilizado, num sentido próximo do atual, por Cósimo de Médicis que aplicou-o à sua coleção de códices e curiosidades.O humanismo renascentista acrescentou ao valor hedonístico e econômico da obra de arte, herança romana, um valor formativo e científico para o homem educado.

O valor do objeto clássico é agora estético e histórico. O material do passado aí está para recriar e interpretar a cultura clássica.

A França patrocinou um colecionismo, como forma sutil de prestígio e enriquecimento do patrimônio, e impôs, segundo Aurora Leon, o estilo da corte que foi assumido pela burguesia. Na burguesia ascendente, eram encontrados todos os tipos de colecionadores. Rica e ilustrada, ela produzia bens e consumia arte.Entrementes, já havia inquietude entre os estudiosos para que os museus fossem abertos ao público.

Até o final do séc. XVIII, as coleções tinham um caráter privado.O acesso às coleções só se efetivou com a Revolução Francesa que converteu as grandes coleções reais em museus públicos, e o museu foi estabelecido como um dos instrumentos da democratização do saber.

Louvre – representante dos princípios do período revolucionário.

Pietro Antonio Martini (1739-1797), Exposição no salão do Louvre, 1787.

Hubert Robert (1733-1808), Projeto de organização da grande galeria do Louvre, 1796, Óleo sobre tela, 115 x 145 cm.

O Romantismo desmantelou as teorias escolásticas e neoplatônicas, resquícios das correntes literárias e filosóficas anteriores, em favor de uma filosofia que considerava que tudo o que significasse mudança levaria o homem a um estado trágico. Portanto foi significativo que a criação dos museus, no séc. XIX, tenha se utilizado da tradição para servir de apoio à existência humana.

O museu respondeu, então, e responde hoje, à necessidade de colecionar e preservar para o futuro, completando o processo histórico da humanidade, provendo-a de outros elementos além dos da história escrita. O conhecimento do passado, através de objetos e registros que sobreviveram, se impôs, pois objetos não estão sujeitos a erros de interpretação humana.

O fim do século XIX conheceu o museu como depósito de objetos exóticos dos despojos coloniais. As expedições científicas às colônias alimentavam os acervos e transformaram os museus em instituições de pesquisa científica. A introdução da pesquisa levou o museu a especializar-se por áreas do saber e a remanejar as coleções, mas o museu ainda era voltado para si mesmo.

Todos sabemos que reconhecer o passado é conhecer-se melhor. Quem se conhece tem identidade, sentimento de pertencer, faz parte de um grupo humano específico. O desejo das culturas de conservar para o futuro seu patrimônio permitiu que através dos séculos ocorresse uma acumulação patrimonial, por isso, assinala Fernández, a realidade patrimonial precedeu a existência de uma ciência museológica.
Mas onde guardar o patrimônio?

No início, os museus ocuparam palácios já existentes, cuja arquitetura imponente poderia, e certamente o fez, intimidar o público, além de obrigar a execução de um mínimo de adaptações para obter certa funcionalidade.

No séc. XX a arquitetura começa a procurar a verdadeira identidade do museu, há necessidade de pensar o museu, planejar a adequação entre conteúdo e continente. Inicia-se, também, intensa atividade investigadora para elaborar as melhores formas de organizar e expor em museus.

No século XVIII, as coleções são exibidas de maneira cumulativa, procurando mostrar como a arte ocidental reflete um pensamento estruturado, sedimentado de novos mundos conquistados.

O século XIX é marcado pela supremacia cientificista, uma radicalização do projeto iluminista, no qual o museu se torna a institucionalização do desejo da supremacia cultural.

A revitalização do museu, a partir da primeira guerra mundial, foi reflexo do sentimento do homem que passou a se sentir deslocado, perdido de suas origens, e buscou sua tradição no museu. Outra consequência do clima pós-guerra foi o aparecimento de novos museus, principalmente em países como o Brasil que presenciou a criação do MASP (Museu de Arte de São Paulo), do MAM (Museu de Arte Moderna) de São Paulo e do MAM do Rio de Janeiro.

Giovanni Paolo Pannini, Galeria de Pinturas de Roma Antiga, 1759, óleo sobre tela.

A expografia com cavaletes de vidro e concreto, criação de Lina Bo Bardi para a galeria do acervo do Museu de Arte de São Paulo.

Sejam todos bem vindos ao universo do Conhecimento, das Artes e dos seus “lugares de memória”, da memória que conta a nossa história, dos feitos de nossa cultura!

In ars veritas.

Bibliografia Sugerida:

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É jornalista e historiadora, pós-graduada no MBA em Bens Culturais: Cultura, Economia e Gestão, pela Fundação Getúlio Vargas e pós-graduanda no curso de especialização em Arte: Crítica e Curadoria na Pontifícia Universidade de São Paulo (PUC-SP). Frequentou os cursos livres de História da Arte na Escola do Museu de Arte de São Paulo (MASP) por quatro anos. Trabalhou em Museus, Arquivos e Instituições Culturais. Foi voluntária no Centro de Documentação e Biblioteca do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Dá cursos e palestras sobre história da arte em fundações, centros culturais e no Centro de Capacitação para professores da rede pública municipal de São Caetano do Sul (CECAPE- SCS).  Trabalhou em instituições culturais e museológicas e atualmente trabalha pesquisando e organizando uma coleção particular.

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