abr 22, 2018
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Esta nova coluna: “Praxis, Poiesis e Theoria” propõe a publicação de artigos de graduandos de História, Ciências Sociais e outros cursos que compõem o Campus da Universidade Federal Fluminense, no município de Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense. Distante 300 km. da Sede da UFF em Niterói, o Instituto de Ciências da Sociedade foi fundado há 56 anos, com o Curso de Serviço Social. Com a expansão e reestruturação pelo REUNI, foram criados cinco novos cursos: Ciências Econômicas, Geografia, Ciências Sociais, Psicologia e História. A proposta é que as experiências pessoais e acadêmicas sejam aqui relatadas. Ocasionalmente, outros temas poderão ser abordados. Inauguramos este espaço com o depoimento crítico da Hísis Rangel que, lutando suas batalhas cotidianas, como ela mesmo diz, se tornou a  “primeira mulher transgenêro graduanda em licenciatura de Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense de Campos dos Goytacazes”. Suas conquistas, como a do reconhecimento oficial do nome social é exemplo para a luta por outras necessárias conquistas para todos. Hísis Rangel – Primeira mulher transgenêro graduanda em licenciatura de Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense de Campos dos Goytacazes, militante do coletivo LGBTQI+ Gaytacazes, fundadora do Coletivo Trans Goytacá e também militante do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade).  

Identidades trans como protagonista social

  Uma identidade trans se constrói quando um sujeito não atua de acordo com seu desempenho de gênero destinado à sua genitália determinada pela sociedade. Dessa maneira, abrimos margens para uma exclusão social em massa de pessoas, por sua conduta social, que é relacionado ao meio em que elas vivem, assim como na comunidade, na família e na vida. Conduzidos à marginalidade e à inadmissão como cidadãos, pessoas que se identificam como transexuais/transgenêros são impossibilitadas de ter uma vida comum como os sujeitos que se reconhecem como  cisgêneros (aquela identidade onde o sujeito se constrói com o desempenho de gênero destinado a sua genitália). O sujeito que se identifica como trans, é excluído e expulso das redes de relações sociais que se encontram nas instituições básicas do convívio social: a família, a escola, a igreja e o Estado, como definidas pelo sociólogo alemão Nobert Elias, em sua obra “Introdução à Sociologia”. A primeira é a família, que rejeita seus filhos, pois ainda vive em um modelo patriarcal em que qualquer aparência de promiscuidade acarreta inúmeras consequências. Logo depois, o ensino que ainda propaga modelos ensinados pela família patriarcal, prejudicando o indivíduo em suas formações escolares por causa de perseguições, agressões verbais ou físicas, intencionais ou não, mas que também acarreta inúmeras consequências, tais como medo de ir à escola, aceitação das agressões acreditando estar errado, abandono dos estudos ou até suicídio. Após essas duas instituições citadas vem a Igreja. Até hoje, católicos e protestantes, que são a maioria religiosa identificada pelo censo (IBGE, 2010) continuam perpetuando um modelo de conduta opressor, mantendo qualquer sexualidade que foge do padrão cisgênero como gesto proibido condenado ao pecado, e as expressões de gênero ditas únicas, de Adão e Eva. Após a Igreja, vem a última instituição, que é o Estado, que ainda é conservador, e se mostra através de um modelo cristão e patriarcal proibindo pessoas trans ao reconhecimento enquanto cidadãs, negando direitos básicos como reconhecimento ao nome social desejado pelo individuo. Esses indivíduos, que tem todo o seu protagonismo social marcado pela ignorância e falta de compreensão das pessoas ao seu redor, vivem uma vida reprimida e atordoada, que faz com muitas vezes tirem a própria vida por acharem que não são dignas à existência. Crescem ouvindo piadas sobre sua performance como conduta de desvio do normal, também muitas vezes sofrendo agressões de indivíduos que se dão ao direito de julgar a conduta do outro, seja amigo, conhecido ou até um próprio familiar. No cenário atual brasileiro, esses indivíduos através da mídia aparecem sempre em casos de vulnerabilidade social como o alto índice de morte, desemprego, baixa renda, sem casas e etc. Porém, têm conquistado espaços nunca imaginados pela população em geral, como o caso da Tifanny Abreu, que é a primeira transexual a entrar na superliga feminina de vôlei, ou como o caso da Leia T que é uma modelo e estilista trans brasileira conhecida internacionalmente, ou como o Thammy Miranda, que também se identifica como trans é ator, cantor e ex-modelo brasileiro, entre outros exemplos. Embora não haja muitas estatísticas sobre (des) emprego entre esse público alguns dados localizados são significativos. Segundo a Associação das Travestis e Transexuais do Triângulo Mineiro (Triângulo Trans), apenas 5% das travestis e transexuais de Uberlândia estão no mercado de trabalho dito formal. As demais, 95%, estão na prostituição. Também apresentado pela ANTRA – Associação Nacional de Travestis e Transexuais, segundo a qual 90% das travestis e transexuais estão se prostituindo no Brasil. Mesmo querendo estar em um emprego formal com horário de trabalho, rotina e carteira assinada o preconceito e a ignorância ficam evidentes quando se candidatam a uma vaga. Nesse contexto de vulnerabilidade, a militante feminista e ativista trans brasileira Daniela Andrade, que também é analista de sistemas, junto com mais dois companheiros criou o primeiro portal de empregabilidade trans no Brasil: o site Transempregos (http://www.transempregos.com.br/) com a finalidade de aproximar a população trans do mercado de trabalho formal. Em 2013, preocupados com a realidade desses cidadãos e cidadãs no Brasil, Daniela Andrade, junto com seus dois companheiros, motivados pela crescente demanda de inciativas da sociedade civil e da responsabilidade social, criaram um projeto sem fins lucrativos. Sem ser uma agência de empregos, mas uma ponte entre empregadores e colaboradores (as) que acontece ali de forma espontânea. Assim nasceu o Transempregos, que hoje conta com resultados, apoiadores e parcerias que buscam a cada dia oportunizar a equidade dessa parcela da população que ainda é tão marginalizada. Também com a intenção de socializar esses indivíduos nasceu em a Casa Nem que se localiza no bairro da Lapa no Rio de Janeiro, que tem como intenção de ser um local que abriga transexuais, travestis e homossexuais em situação de risco social. A Casa Nem também conta com o projeto Prepara Nem que é um curso preparatório para o Enem voltado para o público trans. Lá também há outros cursos como costura ou cabeleireiro para aqueles (as) que não querem ingressar em uma universidade. Tanto a Casa Nem como o Projeto Nem foram fundados pela ativista Indianare Siqueira, que é prostituta e vereadora suplente do município do estado do Rio de Janeiro pelo partido PSOL. Sendo assim, abrindo margens para uma inclusão desses indivíduos que se descobriram como corpos com identidades trans, grupos de ativistas vêm lutando incansavelmente para a ressocialização e incorporação desses indivíduos na sociedade. Hoje há um avanço claro na luta contra o conservadorismo. Ativistas em prol de pessoas trans seguem fazendo barulho e chamando atenção por onde passam, nessa lua pela cidadania plena.   REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ELIAS, Norbert. Introdução à Sociologia. Braga: Editora Pax Limitada, 1980.
 
 
 

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O outro, espelho de mim
maio 03, 2017

O outro, espelho de mim

Neste momento me pergunto se as notícias de horror de outros países, que são apresentadas aos europeus, não serviriam também como uma forma de propaganda, como uma forma de construção da sua própria identidade.
Análise crítica sobre a animação “Tá chovendo hambúrguer”
abr 03, 2018

Análise crítica sobre a animação “Tá chovendo hambúrguer”

Larissa Buratto Vasconcelos

Discente da Universidade Federal do ABC -UFABC

Profa. Dra. Ana Maria Dietrich

Historiadora e docente da Universidade Federal do ABC

Na animação “Tá chovendo hambúrguer”, muitos aspectos equivocados a respeito da ciência e do cientista que são apresentados atualmente no ensino de ciências – seja através dos livros didáticos, seja pelos próprios professores, cujas concepções estiveram presentes também na sua formação, entre outros – são reforçados, sendo eles: a imagem do cientista como alguém diferente, incompreendido, genial (“nerd”), isolado, com cabelo bagunçado e sempre de jaleco (o próprio personagem do filme diz, quando ganha seu primeiro jaleco: “uau, igual dos cientistas de verdade!”). Também como alguém que trabalha em um laboratório maluco, super equipado, criando invenções malucas e complexas, a partir de ideias totalmente originais e estando sempre a serviço do bem da humanidade (o cientista do filme inventou o “sapato spray” e a máquina de fazer comida, por exemplo, motivado pelas necessidades que observou na comunidade em que vivia).

Sabe-se, no entanto, que os cientistas não são pessoas dotadas de uma inteligência descomunal, mas pessoas com oportunidades de desenvolver suas pesquisas, não possuem um único estereótipo, não trabalham necessariamente dentro de um laboratório padrão, não precisam viver isoladas socialmente, assim como geralmente trabalham em conjunto com outros cientistas, discutindo e recriando ideias já antes apresentadas, bem como a ciência não é imparcial nem está sempre a serviço do bem comum, mas recebe influência de fatores externos, sendo eles políticos, econômicos, sociais, históricos e mesmo pessoais.

Já esse último aspecto citado é apresentado no filme, quando o cientista age influenciado pelo prefeito da cidade, e quando toma sua decisão movido por vaidade, dado o reconhecimento do seu trabalho (o personagem diz: “pela primeira vez as pessoas estão gostando do que eu fiz”), contribuindo nesse aspecto para desmitificar a visão da ciência e do cientista veiculadas no ensino. O filme também ontribui nesse sentido ao mostrar que as “invenções” não dão certo na primeira tentativa, revelando a falibilidade da ciência, que se constrói por tentativas e erros, bem como mostra a importância do diálogo entre a comunidade científica e a sociedade.

A FEMINILIDADE: UMA CONSTRUÇÃO DO SER MULHER.
ago 25, 2017

A FEMINILIDADE: UMA CONSTRUÇÃO DO SER MULHER.

A Coluna INcontros recebe nesta semana, a contribuição de Guilherme Silva dos Passos* e Ana Suy Sesarino Kuss**, sobre um tema debatido em várias áreas do conhecimento, que é o da feminilidade e a construção do ser mulher, mas o enfoque dos autores aqui é aprofundado através da Psicanálise.

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Berlim, você é maravilhosa!
fev 21, 2018

Berlim, você é maravilhosa!

"Berlim, du bist so wunderbar!" Um jargão de um comercial de cerveja, define de maneira deliciosa a cidade. Sim, Berlim, você é maravilhosa! Estou de volta ao Brasil por uns meses e desde que deixei a cidade, ainda não parei para pensar nela, esta é a primeira oportunidade. Berlim é uma cidade em metamorfose, isso fez parte da sua história como de nenhuma outra. Na Idade média eram duas pequenas vilas - Berlin e Coln - separadas por um rio, e foi este rio que trouxe a riqueza do comércio para elas,  então já fundidas em uma. No século XVIII foi sede da monarquia prussiana, no XIX começou se industrializar e se expandir, no início do século XX era uma metrópole moderna, "avangard", que nos anos da ditadura nacional socialista foi reprimida e "postas nos eixos da rigorosa moral alemã". Com o fim da guerra voltou a ser duas, separada então por um muro e duas ideologias. Fundidas novamente em uma, a cidade vai perdendo a cada dia as suas diferenças. Mostro aqui um pouco do que foi marcante para mim, enquanto estrangeira, moradora desta metrópole. Dos símbolos nas ruas da cidade, a estética típica comunista do monumento (entre outros) homenageando o presidente do Partidão Ernst Thälmann. Na calcada, gravada uma alusão  à cultura rave, Berlim sem thecno é impensável!  

Parque Ernst Thälmann, Greifwalder Str.

 

A cidade é rave! Körsorer Str,

  Seguindo uma espécie de herança do rebelde e artístico, característico da Berlim capitalista, a cidade tem como política incentivar em jovens talentos e faz, entre outros tipos de manifestações, da Arte de Rua (diferente da "arte na rua", leia http://revistacontemporartes.com.br/wp-admin/post.php?post=1952&action=edit) parte de seu potencial turístico. Um dos cartões postais é o pedaço do muro chamado "east Side Galery". Aqui uma ideia genial, um muro onde o grafite é permitido e livre, podemos ver - finalmente! - como se faz estas obras.

Work in progress, Mauer Park

 

Turistas interferindo na arte... Talvez rabiscar com spray já seja arte também! Mauer Park

  Este lado rebelde da Arte de Rua, está por todo lado da cidade, formando movimentos como o de pintar os trens. Artistas de rua se organizam em grupo para grafitarem rapidamente e de assalto um trem parado no pátio... Sempre procurando a provocação, não se limitaram destas vez aos trens da metro...  

Grafitar trens é um movimento internacional na Arte de Rua.

 

A provocação não tem fim...

  E por falar em arte na rua, mostro meu grupo preferido de música de rua, o Ruprecht Kitschen Orchestra. Aproveito este espaço para fazer uma homenagem à eles e seu trabalho - música Dancing de melhor qualidade com letras bem humoradas. Se por for para Berlim e pro acaso encontrar na ruas este pessoal, pare, ouça e dance!

Ruprecht Kitschen Orchestra, vai ver no Utube! : -)

  Por fim algo típico de Berlim, o "viva e deixe viver". Ou como uma fuga do conservadorismo e rigidez - no caso da Berlim ocidental, ou como busca de mais liberdade e oportunidades - no caso de Berlim oriental, guardada as devidas diferenças e proporções, nos dois lados a cidade oferecia a possibilidade de viver a "sua vida". Herança dos tempos modernos dos início do século, quiça!? A cidade parece que nunca será domada e olha que tem muitos novos moradores - alemães ocidentais - que tentam! (leia http://revistacontemporartes.com.br/wp-admin/post.php?post=1072&action=edit) terá sempre seus lado anárquico, questionador, alternativo. Sim, como em todas as grandes cidades! Claro! Mas lá é um tiquinho diferente... Aceite o conselho no poste: "Trabalhe como se você não precisasse de dinheiro. Dance, com se ninguém estivesse olhando. Ame, como se nunca ninguém tivesse lhe magoado. Viva, como se o paraíso fosse aqui na terra."  

Placa de metal, gravada em várias línguas. Körsore Str.

A ciência e a bola
abr 09, 2017

A ciência e a bola

Como os avanços da fisiologia e da preparação física tornaram possível a revolução tática da seleção holandesa na Copa de 74.
A INCRÍVEL ÁRVORE DOS GANSOS
fev 27, 2018

A INCRÍVEL ÁRVORE DOS GANSOS

  Possivelmente, um dos primeiros ensinamentos que recebemos em sala de aula é a emblemática divisão da natureza em três reinos: animal, vegetal e mineral. Tão sublime e gritante nos parece tal classificação, que tendemos a imaginar que este entendimento reinou com todas as honras em todas as épocas e culturas, até porque seria simplesmente inquestionável. Contudo, a consolidação da noção dos Três Reinos da Natureza na ciência ocidental é relativamente recente. De fato, o conceito data do século XVIII, estabelecido pelo famoso botânico, zoólogo e médico sueco Carl Nilsson Linnaeus, ou Carlos Lineu em português (Figura 1).  
FIGURA 1: Carlos Lineu num dos muitos retratos institucionais dedicados ao cientista escandinavo
  Igualmente conhecido na forma latina de Carolus Linnæus, e numa averbação fidalga como Carl von Linné [1], o cientista, para quem a história das ciências reservou o epíteto de “Pai da taxonomia moderna”, firmou esta classificação científica, que pela repetição, conquistou foros de obviedade junto ao senso comum moderno. Contudo, nem sempre foi assim. Muito embora códigos antiquíssimos, caso da Bíblia, registrassem classes de seres vivos, e no texto dos memoráveis livros sagrados, animais “que se arrastam” e quadrúpedes “segundo sua espécie”, assim como almas vivas “que voam sobre a terra” (Cf. Bereshit-Gênesis, 1: 20-23), nada disto significa que outras classificações não habitassem o âmago dos imaginários culturais de todos os povos. Este seria o caso do curioso borametz, barometz ou boromez, um estranhíssimo tipo de carneiro vegetal, que os europeus ocidentais durante séculos acreditavam habitar as imensidões da Tartária, Cítia, Astrakan e arredores da Moscóvia, ou Rússia, que até o Século XVI não era entendida como parte da Europa. Tinha-se como certo que este quadrúpede aberrante frutificasse no cimo de uma grande árvore ou então, se elevava a partir de quatro raízes, alimentando-se de nutrientes retirados do solo e da brisa destas regiões remotas (Cf. Figura 2).
FIGURA 2: Descrição visual do borametz do Século XIV, atribuída a Sir John Mandeville, viajante britânico da época. No parecer de Mandeville, os cordeiros cresciam fora das vagens. Entretanto, narrativas posteriores prescreviam que o cordeiro vegetal estava limitado a um ser vivente por caule, ou então, sustentado por quatro enraizamentos próprios
  Circulavam a rodo muitos relatos de florestas formadas por rebanhos arbóreos do borametz, que como todos os cordeiros, baliam rompendo o silêncio das estepes ou com maior estridência, quando eram atacados por lobos, que faziam os indefesos carneirinhos sangrar aos jorros até a morte desde a copa das árvores. Havia de igual modo um interesseiro apenso de fundo econômico no borametz. Não poucos creditavam que a volumosa exportação de algodão de fibra longa da Ásia Central nada mais seria do que resultante da extração periódica da lã dos pobres cordeirinhos, que não tinham como fugir da cobiça dos mercadores. Atente-se que a crença na existência de carneiros que nasciam em árvores não ficou restrita às crenças ignaras de iletrados ou do populacho carente de informação. Ninguém menos que o consagrado iluminista Denis Diderot, referendou o carneiro vegetal no verbete Zoophytos, alusivo ao grupo dos plantanimalia, na emblemática Encyclopédie ou Dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers, datada de 1751. Aliás, como ensina a boa etimologia do grego e do latim, esta classe de seres seriam simultaneamente animais e vegetais [2], um grupo de transição na tipologia criada por Carolus Linnaeus. Mas, bem mais do que o Borometz, nada foi mais controverso do que a espantosa Árvore dos Gansos ou Barnacle Tree, tal como se tornou conhecida no universo linguístico anglo-saxônico. Note-se que nos anais da zoologia fantástica, a fabulação da Árvore dos Gansos conquista relevância singular em razão de uma série de aspectos ausentes nas narrativas de outras entidades biológicas míticas. Isto porque seres como o Odradec, a Anfisbena, o Burak, a Mandrágora, o Antílope de Seis Patas, as Sirenas e uma sortida coleção de monstros não conviviam com os humanos. A não ser, é claro, nas prosas, nos mitos, na literatura oral e nas historietas contadas para educar crianças rebeldes. Pelo contrário, o que distingue o barnacle, barnaca ou ganso-de-faces-brancas (Branta leucopsis), palmípede da família Anatidae, que acreditava-se, nascia nos ramos de uma árvore, é o fato de materializar uma entidade real. Ou então, realíssima: nas altas latitudes do continente europeu, e a título acidental nos países do Mediterrâneo, este simpático gansinho (Figuras 3), pode ser visto em revoadas em formações com dezenas de indivíduos.  
                                                                                  FIGURA 3: Instantâneo do Barnacle
  Biologicamente, o barnacle é uma ave migratória, que nidifica nas ilhas gélidas do Ártico, como na Terra de Francisco José, no Arquipélago das Svalbard, Severnaya Zemlya e Nova Zembla, invernando nas paragens temperadas da Europa Ocidental, em especial na Grã-Bretanha, Irlanda, Ilha de Man e Países Baixos. A espécie, marcando presença com granados exaustivos, compõe a estética de lagos calmos e paradisíacos, assim como na beleza dos esquadrões de palmípedes que cruzam os céus do Hemisfério Norte, anunciando a chegada destas aves belas e voluntariosas. Exatamente a característica invernante do ganso-de-faces-brancas parece ser a origem da lenda de que o barnaca seria uma ave vegetal. No final das contas, ninguém via os ovos do ganso e tampouco, carinhosas mamães aves chocando o que seriam os futuros filhotes. Daí alguém ter imaginado que brotariam de árvores, sobressaindo-se de um tipo de concha (Figura 4), foi uma asserção que terminou sendo aceita, e com o passar do tempo, cada vez menos sujeita a refutações.
                       FIGURA 4: A Árvore dos Gansos, em Cosmographia (1554).
  Ao menos esta é uma explicação com a qual concordam antropólogos e historiadores da ornitologia. No âmbito da antropologia, há também quem diga que esta fábula seria de origem celta. Não por outra razão, o fato do mito ser encontrado em regiões que no passado foram ocupadas por comunidades desta linhagem linguística e cultural, o que aparentemente, comprovaria esta tese. Todavia, retornando à especificidade ficcional da Árvore dos Gansos, o que chama a atenção são as polêmicas que durante séculos absorveram a energia de segmentos da população europeia quanto à gênese e taxonomia do barnaca. Até porque, ao contrário a outros seres que habitavam o imaginário dos grupos, este ganso estava à vista de todos, grasnando belo e feliz. Retenha-se que a tese da genealogia arbórea do ganso foi alçada ao patamar de uma fidedignidade inquestionável com base em relatos de pessoas que afirmavam terem visto os gansos saindo das suas cápsulas para de pronto, ganharem o meio líquido, nadando como se nada de anormal tivesse acontecido. Eis como o clérigo Giraldo de Gales (também conhecido como Giraldus Cambrensis), historiador e escolástico natural do País de Gales, registrou, no Século XII, detalhado testemunho da vinda do barnaca ao mundo dos vivos: “Eles obtêm sua alimentação e crescimento da seiva da madeira ou do mar, por um processo secreto e maravilhoso de alimentação. Existindo assim um lapso de tempo, se revestem com uma forte cobertura de penas, caindo na água ou voando livremente para o ar”. E mais: “Muitas vezes eu vi, com meus próprios olhos, mais de mil desses pequenos corpos de pássaros, pendurados na margem de um tronco de madeira, fechados nas conchas e já formados. Eles não se reproduzem ou colocam ovos como outras aves, nem tampouco produzem ovos, nem parecem criar ninhos em nenhum canto da terra”. Sem entrar no mérito do que teria justificado tamanha ousadia por parte do sacerdote em confirmar a insólita proposição de gansos arbustivos, por certo, a despeito de objeções de outro grande autor medieval, o bispo Albertus Magnus (Século XIII), esta lorota foi amplamente repetida e mais ainda, aceita sem pestanejar, passando a encontrar abrigo certo e seguro nas obras de religiosos e inclusive, de homens da ciência. Foi assim que a celebrizada e minuciosa Cosmographia (1540), obra desenvolvida sob supervisão do cartógrafo Sebastian Münster, memorável por constituir a primeira descrição do ecúmeno [3] em idioma alemão e que em termos editoriais, materializou uma das publicações mais bem-sucedidas e populares de todo o século XVI, endossa a existência da Árvore dos Gansos, primorosamente reproduzida enquanto um dado da geografia do real. Para além do aval científico, a mitologia do ganso vegetal parece ter subsistido por conta de proveitos mais do que prosaicos. Acontece que a carne desta ave era muito apreciada, isto sem contar a gordura, que satisfazia a demanda por calorias em terras frias e pouco agraciadas pelo calor do Sol. Existia um evidente ganho secundário em respaldar o mito da ave arbustiva: não sendo propriamente um animal, sobre o barnaca não pesariam óbices religiosos como o da Quaresma, período no qual os cristãos devem se abster de saborear carne. Sabe-se que na Irlanda, nobres, bispos e os homens do povo não tinham escrúpulos em servir-se de lautos jantares com pratos à base do suposto ganso vegetal, senão porque a ave não seria carne simplesmente por não ter nascido da volúpia da carne. Por extensão, estaria isenta de pecado. Claro está, as autoridades eclesiásticas farejaram um ardiloso embuste nesta versão de vegetal com penas e que tinha gosto e bico de ganso, passando a contestar o que julgavam como sinal de desvio da adesão à fé católica. Tanto assim que no Quarto Concílio de Latrão (1215), o Papa Inocêncio III proibiu expressamente o consumo do barnaca durante a Quaresma. Ponderou Sua Santidade que, apesar da reprodução incomum, os barnacle viviam e se alimentavam como gansos. Logo, seriam da mesma natureza que demais pássaros congêneres. Acautele-se que tais querelas não ficaram de modo algum circunscritas à fé católica. Entre os judeus, o ganso vegetal alimentou vívidas controvérsias. Pois bem, este notável bichinho alado seria ou não kasher? Ou seja: quão apropriado seria para o consumo no contexto das rigorosas leis dietéticas judaicas? Deveria ser anexado à pauta kasher como carne ou como uma espécie de legume com penas? Como sói acontecer nos debates relacionados com a interpretação da Halakha, a jurisprudência legal mosaica, a exposição dos pontos de vista foram acaloradas e geraram autênticos rios de tinta. Inferência que não poderia ser negada, inúmeros rabinos argumentavam que não existia na Torah, a Bíblia Judaica, quaisquer menções a espécimes que fossem concomitantemente parte animal e parte vegetal. E de qualquer modo, a apetitosa e excêntrica ave (ou vegetal emplumado) poderia ou não ser devorada, de preferência após um estágio num forno bem quentinho? O acirramento e a elevação da temperatura da discussão do tema, fizeram com que o prestigiado rabino francês Jacob ben Meir (Século XII) se pronunciasse, que o fez indo direto ao ponto: o ganso-de-faces-brancas, independentemente de brotar de uma árvore (informação que não foi posta em questão), tinha características físicas de um animal, a começar pelo fluxo sanguíneo. Logo, determinou que os gansos seriam kasher desde que abatidos e limpos segundo as milenares prescrições judaicas adotadas para o abate dos demais pássaros, nem mais, nem menos. No mais, o surpreendente é que o mito botânico da Árvore dos Gansos demonstrou notável resiliência. A expansão marítima inglesa e holandesa abriu caminho para que os navegantes alcançassem as longínquas ilhas onde estas aves faziam ninhos e, por conseguinte, comprovou-se que eram pássaros de verdade. Todavia, esta peça de ficção sobreviveu na mentalidade popular e no sistema de crenças de múltiplos segmentos sociais e gastronômicos, perseverando em cativar audiência e aceitação, inclusive entre os herbalistas, até o Século XVIII adentro. Do que foi colocado, se impõe o veredicto de que a Árvore dos Gansos não corrobora, a despeito de possível presunção a este respeito, nenhum julgamento formalmente negativo a respeito da qualificação intelectual dos europeus. Basicamente em razão de que crendices e ideações atualmente consideradas tolas e pueris, todos os povos e todas as culturas de todos os tempos as possuem, sem nenhuma exceção. O problema então residiria no plano civilizacional do Ocidente, um padrão cultural cuja autoimagem de magnificência sancionou seriada coletânea de crimes encetados contra povos carimbados como alheios ao progresso e porque não recordar, como refratários ao próprio status de civilização, conceito que incluiu a totalidade das populações humanas externas ao continente europeu. Neste prisma, eis como Samora Moisés Machel, líder nacionalista da guerrilha em Moçambique, que viria a expulsar os colonialistas portugueses e tornar-se o primeiro presidente desta nação, lucidamente explicou o choque com o colonialismo diante dos estigmas seculares impostos sem piedade aos povos e etnias do seu país: “Eles dizem que nós somos uma raça inferior e atrasada, com costumes primitivos, um povo ignorante que deve ser educado pela raça superior e avançada, cheia de bons costumes e de sabedoria. A constituição portuguesa diz expressamente que a essência da nação portuguesa é ‘instruir’ os ‘bárbaros’, que somos nós. Eles repetem continuamente este argumento, muito embora toda a gente veja que em Portugal há mais de 40% de analfabetos, que a miséria dos camponeses e do povo português é enorme, que o seu obscurantismo não é inferior ao nosso e possuem tantas ou maiores superstições do que nós, embora diferentes” (Vide MACHEL, 1979: 18). Assim, talvez um olhar crítico da Árvore dos Gansos estimule a observar exatamente no que o ponto de vista defendido por Machel esclarece: o quanto a inferioridade surge a partir da imposição de um recorte de poder, que estipula o que é tolice e o que é digno de ser aceito, quando na realidade, o que se coloca é um plano comum. A Árvore dos Gansos, dentre outras superstições, nos mostra, nesta perspectiva, o quanto os humanos são igualmente crédulos e propensos a acreditar no que optam por acreditar. Assim sendo, é inadmissível a qualquer grupo qualquer pretensão de superioridade frente aos demais grupos. Que este entendimento possa, pois frutificar em percepções generosas, dispostas a observar a Humanidade dispensando antevisões e preconceitos, atentas ao prestígio dos mitos e das ideações, e deles, extrair sua essência universal.   BIBLIOGRAFIA BALANDIER, Georges. Antropologia Política. São Paulo (SP): coedição Difusão Europeia do Livro (DIFEL)/Editora da Universidade de São Paulo (EDUSP). 1969; BRETON, Roland Jules-Louis. Geografia das Civilizações. Série Fundamentos, nº. 60. São Paulo (SP): Editora Ática. 1990; CUVILLIER, Armand. Sociologia da Cultura. Porto Alegre e São Paulo (RS-SP): coedição Editora Globo e Editora da Universidade de São Paulo (EDUSP). 1975; GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro (RJ): Livros Técnicos e Científicos Editora (LTC). 1989; MACHEL, Samora Moisés. Estabelecer o Poder Popular para Servir as Massas, Coleção Terceiro Mundo. Rio de Janeiro (RJ): Editora Codecri. 1979; MÜNSTER, Sebastian. Cosmographia. Cosmographie universalis Lib. VI. In quibus iuxta certioris fidei scriptorum traditionem describuntur, Omnium habitabilis orbis partium situs, propriaeq, dotes. Regionum Topographicae effigies. Terrae ingenia, quibus sit ut tam diferentes & varias specie res, & animatas, & inanimatas, ferat. Animalium peregrinorum naturae & picturae. Nobilicrum ciuitatum icones & descriptiones. Regum & principum genealogiae. Item omnium gentium mores, leges, religio, mutationes: atos memorabilium in hunc usque annum 1554, gestarum rerum Historia. Autore Sebast. Munstero. 1554; TOYNBEE, Arnold. A Humanidade e a Mãe Terra: Uma história narrativa do mundo. 2ª edição. Rio de Janeiro (RJ): Zahar. 1979; TORAH. Torah: A Lei de Moisés (Humash). Pentateuco em hebraico e português. São Paulo (SP): Editora e Livraria Sefer. 2001; TUAN, Yi Fu. Topofilia: Um Estudo da Percepção, Atitudes e Valores do Meio Ambiente. São Paulo (SP): Difusão Européia do Livro (DIFEL). 1990; WALDMAN, Maurício. Meio Ambiente & Antropologia. Série Meio Ambiente, nº. 6. São Paulo (SP): Editora SENAC. 2006; ENSAIOS Manual de Zoología Fantástica, de Jorge Luis Borges e Margerita Guerrero. Coleção Breviários de Fondo de Cultura Económica, nº. 125. México (DF):  Fondo de Cultura económica. 1971.   SOBRE O AUTOR MAURÍCIO WALDMAN é antropólogo, consultor ambiental, jornalista, professor universitário e pesquisador. Waldman é graduado em Sociologia (USP, 1982), mestre em Antropologia (USP, 1997), doutor em Geografia (USP, 2006), pós-doutor em Geociências (UNICAMP, 2011), pós-doutor em Relações Internacionais (USP, 2013) e pós-doutor em Meio Ambiente (PNPD-CAPES, 2015). Em 2010, a partir de avaliação de pesquisadores dos EUA, Waldman integrou lista de 96 personalidades brasileiras de origem judaica, publicada em Brazilian Jews (Books LLC, USA: Memphis, Tennessee, 2010). Maurício Waldman já colaborou com a mídia impressa em diversas modalidades. Foi colunista, articulista e/ou colaborador da Agência Ecumênica de Notícias, do jornal Diário do Grande ABC, Folha de São Paulo (Seção do Grande ABC), revista Tempo & Presença, site da Editora Cortez, boletim Linha Direta, revista Teoria & Debate, revista Ambiente Urbano, site do Prof Assessoria em Educação, site Cultura Verde,  Secretaria de Comunicação de São Bernardo do Campo, jornal O Imparcial e da revista Brasil-África Magazine. Maurício Waldman atuou durante dez anos como professor-convidado no Centro de Estudos Africanos da USP (CEA-USP) e em muitos cursos de capacitação no temário étnico e racial em secretaria de educação de todo o país. Trabalha desde os anos 1990 em linhas de pesquisa relacionadas a questões raciais, conceitualmente discutidas no bojo de uma antropologia topológica, vertente da disciplina centrada na percepção cultural do espaço-tempo. Autor de 18 livros, 26 ebooks e 700 artigos, papers e pareceres de consultoria, Waldman é autor de Meio Ambiente & Antropologia (Editora SENAC, 2006), obra de referência no campo da antropologia social e ambiental. MAIS INFORMAÇÃO: Plataforma Lattes-CNPq: http://lattes.cnpq.br/3749636915642474 Portal do Professor Maurício Waldman: www.mw.pro.br Biografia Wikipédia (English): http://en.wikipedia.org/wiki/Mauricio_Waldman Blog Pessoal:http://mauriciowaldman.blogspot.com.br/ E-Mail: mw@mw.pro.br   NOTAS [1] No sueco, tal como em muitas outras línguas germânicas, o termo Von (significando “do”, “da”) é indicativo de origem nobre, reportando ao senhorio geográfico de uma linhagem aristocrática. [2] Certo é que o douto enciclopedista francês registrou um reparo, para ele necessário, de que o borametz não seria propriamente um zoófita. Nesta direção, se permitiu advertir que o carneiro vegetal seria, “na verdade, apenas uma planta”. [3] Termo com raiz no grego oikouménē (do léxico οἰκουμένη, forma conjugada do particípio do verbo οἰκέω: habitar), a terminologia esteve primeiramente circunscrita ao mundo greco-romano, designando espaço habitado, mundo conhecido e/ou civilizado. Enquanto jargão usual na geografia, a palavra encarnou o conceito de espaços territorializados pela ação humana, e neste consórcio, progressivamente confundido com os limites do Planeta.