out 16, 2018
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Em um ensaio publicado em 2005 com o título “Da representação à auto representação da mulher negra na Literatura Brasileira”, Conceição Evaristo evidencia a ausência da mulher negra no papel de mãe nas narrativas literárias brasileiras e questiona o efeito simbólico dessa ausência. Considerando a importância da personagem na obra literária, Anatol Rosenfeld (2016) define-a como base fundamental da narrativa, pois sua caracterização produz sustentação ao papel imaginário da literatura. Neste sentido, constituída por suas ações e pelo papel social que desempenha na sociedade, a personagem contribui significativamente com o efeito mimético da obra literária, à medida que possibilita uma maior identificação e proximidade entre o leitor e o texto literário. Antonio Candido, ao tratar do romance, reconhece sua constituição a partir do enredo, personagens e ideias e afirma que a personagem é quem possibilita a adesão afetiva e intelectual do leitor por ser ela o elemento vivo do romance. Desse modo, o horizonte de expectativa do leitor é alimentado ou colocado sob questionamento conforme se dá o modo de composição da personagem. Retomando o questionamento de Evaristo com base na leitura destes dois críticos, a ausência da personagem mulher negra como mãe na literatura evidencia dois pontos fundamentais: o primeiro é a alimentação da expectativa de um leitor padrão, isto é, branco, masculino e economicamente abastado, que historicamente associa a figura da mãe como uma mulher branca e as mulheres negras como empregadas ou objeto de desejo sexual; já o segundo é o efeito performativo do discurso literário que, ao produzir esse imaginário, naturaliza no inconsciente dos leitores mais diversos possíveis a crença de que a mulher negra é estranha ao ambiente familiar, ao negar-lhe sua maternidade. E com isso, como observa Evaristo, produz-se o efeito simbólico de apagar a matriz africana da história brasileira. A voz que denuncia também é a mão que procura escrever outras possibilidades de ser e estar negra na Literatura Brasileira. Em 1987, Evaristo escreveu sua obra Becos da Memória no qual narra as diferentes experiências da população negra em uma das favelas de Belo Horizonte. O livro, que somente foi publicado vinte anos depois, define a relação entre experiência e imaginário como escrevivência. Conforme Evaristo, a escrevivência é o experimento de construir no texto ficcional a fusão entre escrita e vida, pois, na medida em que existe um espaço em profundidade entre o acontecimento e o discurso literário, esse espaço faz explodir a invenção. A voz que fala no texto se enuncia esfacelada e, para que seja possível a narrativa, memória e invenção se fundem e confundem-se para constituir personagens das mais diversas. Da matéria da memória e, portanto, da experiência e da arte criativa, Evaristo compõe as mais diferentes personagens cujo caráter é inovador na Literatura Brasileira. Entre essas personagens ressalta-se a figura da mãe negra: não mais a ama de leite forçada a criar os filhos do sinhô, enquanto os seus filhos lhe eram logo cedo arrancados de seus braços e vendidos como mercadoria desde os tempos da escravidão; agora, surge em suas narrativas a mãe moradora da favela, às vezes abandonada pelo marido, outras vezes viúva do marido morto pela polícia,  ou ainda a que reúne com suas forças matriarcais toda a família em torno de si. Personagens como Vó Rita, Maria-Velha, Joana, Ana do Jacinto, Ditinha, Dora, Natalina e tantas outras crescem e ganham dimensões estéticas significativas como possibilidades diversas do ser mulher negra para além do estereótipo produzido no imaginário racista brasileiro. A figura da mãe negra nas obras de Conceição Evaristo ganha cores diversificadas, pois, como observa Simone Pereira Schmidt, em seu texto A força das palavras, da memória e da narrativa, a escrevivência produz corpos de mulheres negras em profusão fragmentada de narrativas que faz atualizar a relação senzala-favela. Nesse sentido, em Ponciá Vicêncio essa fragmentação se evidencia esteticamente na relação entre mãe e filha: Maria e Ponciá. Como guardadora da casa e da herança cultural, Maria se posta à beira do rio, fazendo vasilhas de barro e, quando o marido chega, ela é quem decide o que ele deve fazer em casa nos dias em que lá permanece e o que fará quando retornar para o trabalho nas terras dos brancos. Maria Vicêncio constitui-se gestora que melhor encaminha os seus e garante todo seu bem-estar, estando seu marido presente ou ausente. Ponciá Vicêncio, à medida que se depara com a possibilidade de migrar para a cidade grande e tentar construir uma outra vida, faz seu percurso de forma muito diferente da mãe. Ela não quer ser mais a matriarca que constitui em torno de si uma família. Longe da sua casa, sua terra, seu rio, enfim, longe de suas raízes, Ponciá amarga a experiência de sete abortos e da companhia de um marido que não a compreende e a agride. Apenas com o reencontro entre mãe e filha e a possibilidade de retorno a suas terras e suas raízes é que Ponciá poderá cumprir o seu destino. Também, no livro Olhos D’água encontramos uma exposição diversa de mães que cantam e encantam seus filhos. Já no primeiro conto, ao questionar qual os olhos de sua mãe, a narradora nos apresenta um percurso narrativo da mãe na luta pelo bem-estar de seus filhos. A mãe que faz da brincadeira com as filhas uma forma de alimentá-las nos momentos em que a panela está cheia de fome; a mãe que faz das nuvens algodão-doce para adocicar os lábios sonhadores de cada uma de suas crianças; a mãe que junta sua cria pelos braços para servir-lhe de proteção nos dias de fortes chuvas e reza para Santa Bárbara proteger seu barraco. Os olhos d’água de Mamãe Oxum, como rios calmos e profundos, materializam nesta e em tantas outras histórias uma diversidade de personagens femininas na obra de Conceição Evaristo como o processo de escrevivência que faz da memória e da ficção um ato de resistência de mulheres negras que foram historicamente violentadas pelo silêncio.

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Comumente a Semana de 22 representa, nos Estudos Literários, o início de uma nova fase no Brasil, consolidando o maior marco da Literatura Brasileira. Alfredo Bosi, a exemplo, referiu-se à Semana como divisor de águas na história da cultura brasileira. Joaquim Inojosa considerou-a como a proclamação de nossa independência. Menotti Del Picchia, como a verdadeira revolta brasileira. Diante desse contexto, poucos estudos não tão recentes, como História do modernismo brasileiro, de Mário da Silva Brito, apresentavam, ainda que timidamente, alguns acontecimentos importantes realizados antes da Semana de Arte Moderna que foram decisivos para sua concretização. A Primeira Guerra Mundial, a intensa imigração e os movimentos sociais da década de 20 são citados em sua obra, na qual, apesar do autor reconhecer tais aspectos, ainda considera a Semana como o grande marco na Literatura Nacional. Cinco anos após a publicação de Mário da Silva Brito, Joaquim Inojosa publicava Os Andrades e outros aspectos do modernismo, em 1975, exaltando Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Menotti Del Picchia como a trindade mosqueteira e as vozes mais altas da Semana de Arte Moderna de 22. Além disso, segundo Inojosa o termo “modernismo” foi criado na Semana de 22 para substituir “futurismo” e “com ele proclamar a independência cultural do Brasil”. A grande maioria dos demais estudos relevantes sobre esse tema não destoavam muito desses percursos, isto é, menciona-se brevemente, ou simplesmente não se menciona, movimentos em outros locais do país além de São Paulo, assim como artistas de outros estados, e os momentos antecedentes a realização da Semana que foram decisivos para seu acontecimento. Contudo, quanto mais nos distanciamos desse período histórico, surgem novas reflexões questionando a consideração da Semana de 22 como início de um novo movimento e, em virtude disso, encontramos estudos abordando o período anterior à Semana como período marcado por inúmeras lutas, as quais se encontravam abrandadas nas criticas literárias em virtude da efervescência da realização da Semana de Arte Moderna em São Paulo. Dessa forma, o termo “Modernismo”, que veio até o momento demarcando um período literário como singular e homogêneo, tem sido substituído por “Modernismos” com intuito de fazer alusão aos movimentos literários manifestados no Brasil, enfatizando que esses não se restringiram à capital paulistana. No artigo “Antigos Modernistas”, Francisco Foot Hardman considera que a crítica e as histórias culturais e literárias, quando presas à noção de “vanguarda”, comprometem aspectos culturais importantes iniciados na sociedade brasileira. Para o autor, é possível verificar três defeitos nocivos causados pela historiografia que se restringia a interpretar o passado cultural brasileiro com as lentes de 22. São eles: A exclusão de amplo e multifacetado universo sociocultural, político, regional que não se enquadrava nos cânones de 1922, em se tratando, embora, de processos intrínsecos aos avatares da modernidade; b redução das relações internacionais na cultura brasileira a eventuais contatos entre artista brasileiros e movimentos estéticos europeus, quando, na verdade, o internacionalismo e o simultaneismo espaço-temporal já se tinham configurado como experiências arraigadas na vida cotidiana do País; c definição esteticista para o sentido próprio de modernismo, abandonando-se, com isso, outras dimensões políticas, sociais, filosóficas e culturais decisivas à percepção das temporalidades em choque que põem em movimento e fazem alterar os significados da oposição antigo/moderno muito antes de 1922. (HARDMAN, 1992, p.168).   Ao discorrer sobre os três defeitos apontados pela redução do Modernismo a um período homogeneizado, Francisco Foot Hardman faz observações essenciais que justificam a substituição do vocábulo Modernismo por Modernismos, pois como observado acima, esse busca contemplar a abrangência do movimento em nosso país. Ademais, o emprego de três vocábulos marcantes – exclusão, redução e abandono – deixam transparecer a enorme perda sofrida pela Literatura Brasileira ao reduzir um período tão amplo e diversificado, como foi o Modernismo no Brasil. Nesse sentido, encontramos no texto do autor exemplos pertinentes para justificar suas considerações: algumas obras e pensadores da década de 1870, analisadas por José Veríssimo, já apresentavam ideais e reivindicações suficientes para nomearem o período de modernismo; a oposição entre campo e cidade; os efeitos da imigração estrangeira e a contradição entre nacionalismo e cosmopolitismo estavam presentes na literatura brasileira há, pelo menos, meio século antes da Semana de Arte Moderna. Fica evidente, portanto, que a sociedade brasileira já vinha sofrendo transformações que produziam fatos culturais modernos sobre diferentes pontos de vista. Corroborando com esse pensamento, Daniel Faria, em O mito modernista, afirmou que, assim como outros estudiosos, pretendia questionar a simplificação do contexto cultural, político e social oriundos da delimitação do termo Modernismo, no Brasil. Para isso, analisou a trajetória de dois autores, Mário de Andrade e Menotti Del Picchia, com a relação da escolha de alguns termos, como futuristas e posteriormente modernistas, como “armas táticas de legitimação” e como “opção estético-política”. Ao traçar esse percurso, Daniel Faria faz importantes observações que nos fazem entender por que a proporção do movimento modernista em São Paulo ganhou notoriedade muito maior se comparado a outras regiões do país. Como se sabe, o Parnasianismo além de ditar princípios, representava a preferência literária da maioria da população brasileira até meados de 1910. Assim, as manifestações artísticas que não se enquadravam nos moldes parnasianos eram, consequentemente, ignoradas pelo público ou conquistava poucos adeptos e leitores. Tais movimentos eram, por sua vez, isolados e com pouca visibilidade, inclusive, aqueles iniciados na cidade de São Paulo que, por questões políticas, obtiveram proporções diferentes, isto é, inicialmente alcançaram maior popularidade se comparado com as manifestações modernistas de demais localidades. Nos últimos anos da década de 1910, havia, em São Paulo, um grupo de intelectuais que tinha como propósito a reinvenção do cenário literário brasileiro. Formado por Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti Del Picchia, Guilherme de Almeida e Luís Aranha, a busca por reconhecimento e visibilidade pública intensificava-se gradativamente. Esse cenário, para Daniel Faria, não passava da prevalência de um grupo específico responsabilizado pela revitalização da arte no Brasil. Receberam homenagens em espaços notáveis como o Trianon, foram rotulados como os grandes super-heróis do movimento Modernista (Mário de Andrade como papa do modernismo e Oswald de Andrade como o bispo) e recebiam ajudas de pessoas influentes no cenário político do país, o que lhes possibilitava maior visibilidade. Em O mito modernista, o percurso de Mário de Andrade e Menotti Del Picchia, nomeados respectivamente como o “ícone sagrado” e “herança maldita”, são abordados sobre um viés menos comum daqueles que, comumente, observamos na crítica literária. Ambos possuíam projetos diferentes, mas que seguiam trajetórias paralelas. Mário de Andrade e Menotti Del Picchia estavam do mesmo lado da Revolução Constitucionalista e participaram do governo paulista de Armando de Sales Oliveira. Por outro lado, Menotti participava da vida política do PRP (Partido Republicano Paulista) enquanto Mário estava, a partir de 1927, ao Lado do PD (Partido Democrático). Além disso, Menotti foi eleito deputado estadual em 1926 e redator do Correio Paulistano durante quase toda a década. Mas, foi a partir de um mesmo núcleo retórico que os autores delinearam, durante a década de 20, argumentos distintos. Enquanto Mário de Andrade traçava temas da humilhação e do sacrifício de si como motes de legitimação, Menotti Del Picchia delineava imagem do martírio encenado diante das multidões. Nesse sentido, é necessária a consideração dos rumos políticos que o país seguia na época, uma vez que esses provocaram condições propícias para mudanças e inovações, também, no mundo artístico. E, é por intermédio dessas considerações que Daniel Faria, na tentativa de destruir os mitos modernistas, propõe reflexões relevantes entre os anos 1920 a 1930, ressaltando que todas as limitações feitas sobre os estudos das manifestações modernistas no Brasil, provavelmente, eliminam artistas e movimentos não pertencentes a um grupo específico e consagrado como o composto por Mário e Oswald de Andrade. Ademais, ajudam-nos a entender a utilização do termo pré-modernismo como uma maneira de sagrar a Semana de 22 como um marco na Literatura Nacional, levando-nos a propagar a indagação de Daniel Faria: existe apenas uma história a ser contada? A resposta, obviamente, negativa, nos faz refletir e repensar a situação quase “marginal” dos movimentos com características inovadoras e modernistas não pertencentes à cidade de São Paulo. Porém, mesmo sabendo que sem a realização da Semana de Arte Moderna haveria o Modernismo, é difícil destruir um “mito” que possibilitou o anúncio e reconhecimento de um movimento que não alcançava as proporções desejadas.   Referências Bibliográficas: FARIA, Daniel. O mito modernista. Uberlândia: EdUFU, 2006 HARDMAN, F. Foot. Antigos modernistas. In: A vingança da Hileia. São Paulo: Unesp, 2009. [1ª. ed.: In: Tempo e História. São Paulo: Comp. Letras, 1992].  
Mitologia e Sexualidade
nov 14, 2017

Mitologia e Sexualidade

A lenda do Boto Cor de Rosa

Olá pessoal, hoje compartilharei um material que venho construindo ao longo de dois bimestre na escola que leciono Filosofia e Sociologia, E. E. Professor Nelson Pizzotti Mendes localizada em uma área de  grande vulnerabilidade social e alto índice de natalidade. A temática envolve a Educação em Sexualidade e a cultura brasileira, para tanto, o objetivo geral foi o de ampliar o debate sobre a Sexualidade e a Mitologia com discentes do Ensino Médio e difundir de maneira lúdica, artística e educativa esses aprendizados para outra unidade escolar de Educação Infantil.  Ao pesquisar um pouco sobre a diversidade cultural brasileira, notei que a lenda do boto amazônico possibilita trabalhar assuntos relacionados a sexualidade, como infecções sexualmente transmissíveis, prevenções, gravidez na adolescência e violência contra a mulher. As aulas se deram da seguinte maneira: Aula/Encontro nº 1 - O mito e a filosofia antiga Duração: 1 hora/aula Objetivos: Entender o que é o mito e reconhecer a diversidade cultural Aula/Encontro nº 2 - Sexualidade, Estereótipos e a Lenda do Boto Duração: 2 horas/aulas Objetivos: Refletir e problematizar os estereótipos, os papeis sociais e a gravidez na adolescência. Aula/Encontro nº 3 - Produção teatral: a Lenda do Boto Duração: 2 horas/aulas Objetivos: Desenvolver habilidades de criação, organização e expressão corporal e oral. Aula/Encontro nº 4 – Produção teatral e musical Duração: 6 horas/aulas Objetivos: Desenvolver habilidades expressão artística, corporal e oral. Os resultados alcançados até então foram: ¤ Análise da mito e reflexão sobre o cotidiano das/dos adolescentes em todas as salas do 1º ano E.M. ¤ Turma do 1º A: Criação do roteiro e cenário; Divisão das tarefas: cenário, atuação, narração e música. ¤ Parceria entre Creche Municipal e Escola Estadual. ¤ Criação, produção e apresentação teatral e musical. ¤ Elaboração de poesia, contos e músicas com as temáticas: sexualidade, paternidade e responsabilidade. A partir do diálogo e leitura de suas produções percebo o quanto aflorou a vontade de estarem na escola, de produzirem algo com cuidado e da consciência crítica ao relacionarem o mito amazônico ao seu cotidiano. Bibliografia AGUIAR, Neuma. Patriarcado, Sociedade e Patrimonialismo. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/se/v15n2/v15n2a06.pdf Acesso em 09/2017 GARANHUNS, Valdeck de. Mitos e lendas brasileiras: em prosa e verso. São Paulo: Ed. Moderna, 2007. GUEDES, Nubia; MELO, Elinay. Não foi o boto sinhá: a violência contra a mulher. Revista Justificando, Disponível em: http://justificando.cartacapital.com.br/2017/02/01/nao-foi-boto-sinha-violencia-contra-mulher-ribeirinha/ Acesso em 06/2017. SALIS, Viktor. A mitologia Viva: Aprendendo com os deus a arte de viver e amar. São Paulo. Ed. Nova Alexandria, 2003. VAZ, Sonia Regina Lunardon. A lenda da Iara e do Boto: Reflexões sobre o transtorno de personalidade boderline. Disponível em: http://www.bonde.com.br/colunistas/mitos-e-sonhos/a-lenda-da-iara-e-do-boto-rosa-reflexoes-sobre-o-transtorno-de-personalidade-borderline-309379.html Acesso em 08/2017
UMA RENCA DE INSENSATOS
set 01, 2017

UMA RENCA DE INSENSATOS

Renca (expressão popular): bando, grupo. RENCA: Reserva Natural do Cobre e Associados.

Quando é necessário, ou conveniente, fazer algo ruim para conseguir um suposto bem maior é comum a justificativa de que não se faz omelete sem quebrar os ovos ou, mais tecnicamente, que é preciso avaliar cuidadosamente custos e benefícios, e se estes superarem aqueles, agir de acordo.

É prudente a análise de custo-benefício como suporte à maior parte das decisões que se precisa tomar na vida, mas aplica-se mais comumente a questões financeiras. No entanto, seu escopo é muito mais amplo, começa no aspecto econômico: se um país investir pesadamente em educação e saúde, em poucos anos não terá retorno financeiro ao capital investido que justifique o investimento, mas o retorno de longo prazo será imensurável, governantes sérios sabem perfeitamente disso, o horizonte dos governantes menos sérios é a próxima eleição.

Vista do parque Nacional Montanhas do Tumucumaque, no Amapá. ACERVO/ICMBIO - https://ep01.epimg.net/brasil/imagenes/2017/08/30/politica/1504105777_233176_1504106556_noticia_normal.jpg

Não vivemos em um mundo de fantasia, sabemos que algumas omeletes devem ser feitas e justificam a quebra de alguns ovos. É preciso produzir alimentos para uma população em crescimento e para exportação, embora não sejamos o “celeiro do mundo” temos participação importante na mesa do mundo, extraímos minérios e petróleo, ampliamos e modernizamos nosso comércio, setor de serviços e indústrias.

Somos mais de duzentos milhões de pessoas demandando comida, empregos e bem-estar, e isso não se fará apenas com ideais. A ampliação da fronteira agrícola implica em desmatamento, mineração é atividade danosa ao meio ambiente, plataformas marítimas de petróleo são instáveis, toda atividade econômica traz risco, perigo e, num mundo ideal seria proibida, mas neste mundo as pessoas plantariam o que comem e morariam em cavernas. Alguém se habilita?

A questão fundamental é que toda atividade econômica deve ser normalizada, e o cumprimento das normas fiscalizado com todo rigor.

À frente do custo-benefício financeiro deve estar sempre o custo-benefício social e ambiental. E embora este mundo não seja o ideal, nosso país está longe demais do mínimo indispensável para ser sério.

A Reserva Natural do Cobre e Associados, de mais de quatro milhões de hectares na divisa do Amapá com o Pará, inclui nove áreas protegidas, indígenas, quilombolas ou de interesse ambiental. É rica, além de cobre, em ouro, ferro, manganês e outros minérios, e a estatal Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais foi a única autorizada a explorar a área desde sua criação em 1984.

Recentemente, numa decisão antecipada meses atrás para empresas mineradoras canadenses, o governo decretou a extinção da Renca; após a grande reação negativa, e no vai e vem ridículo que parece ter se tornado regra em Brasília, cancelou a extinção e a reafirmou em outro decreto, com supostas salvaguardas aos indígenas e áreas de preservação.

Reserva Nacional do Cobre e Associados (RENCA) -  http://www.olivre.com.br/geral/governo-vai-revogar-decreto-e-editar-nova-medida-descrevendo-extincao-da-renca/6982

  O cumprimento das salvaguardas estará a cargo de um tal Comitê de Acompanhamento das Áreas Ambientais da Extinta Renca, subordinado à Casa Civil da Presidencia da República, a Reserva ser considerada “Extinta” no próprio nome do Comitê deve dar uma ideia da pressa.

A privatização tem alguns méritos, e na algumas vezes é benéfica ao país, quando os órgãos do Estado responsáveis pela fiscalização de suas atividades funcionam de acordo com suas atribuições, defendendo os interesses da população e não das próprias empresas privatizadas.

Um Comitê subordinado à Casa Civil certamente terá cargos saborosos para aliados, a única maneira de tentar torna-lo operacional de fato seria preencher dois terços de suas vagas com pessoas sem qualquer vinculação político-partidária indicadas por entidades ambientalistas e universidades.

'Para a Amazônia não virar deserto': Ativistas protestam na Câmara contra a extinção da Renca - https://cdnbr2.img.sputniknews.com/images/923/87/9238703.jpg

Nossa Economia precisa de incremento, o país precisa crescer e produzir riquezas, mas é duvidoso que isso deva ser feito destruindo áreas de proteção ambiental e canibalizando a alma de povos indígenas em troca de caminhonetes de luxo e bugigangas do tipo, como se faz habitualmente.

Trata-se de mais uma negociação tenebrosa, numa hipótese caridosa, com o objetivo de permanência em cargos púbicos por mais alguns meses. Para quê, mesmo? No momento, a constitucionalidade da emissão do(s) decreto(s) está em análise no STF.

Aguardamos.