maio 28, 2020
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O protagonista de “1984”, de George Orwell, é ouvido pelos serviços de informação dizendo que “liberdade é o direito de afirmar que dois mais dois são quatro”. Preso como inconformista, é destruído física e mentalmente pelos torturadores do onipresente “Big Brother”; então, indagado quanto seriam dois mais dois responde com absoluta sinceridade “tanto quanto o Estado disser que são”, pela resposta redentora é considerado reabilitado. A questão toda nada tinha a ver com aritmética, sequer com nada racional, era de poder que se tratava, dominar corações e mentes até o ponto em que qualquer absurdo passa a ser real. O dramaturgo Luigi Pirandello escreveu em 1917 uma peça chamada “Assim é (se lhe parece)”, é o caso de uma família que se muda para uma pequena cidade e é, aparentemente, disfuncional em relação aos hábitos locais. A população passa a se dedicar em tempo quase integral a bisbilhotar os “esquisitos”, suas ações e seus motivos, e não chega nunca a conclusões minimamente consensuais. É um estudo irônico da curiosidade humana colocada no aspecto patético, as pessoas abandonam seus interesses mais práticos para focar em algo que apenas marginalmente lhes diz respeito. E chegam a descobertas e opiniões variadas sobre os mesmos fatos, o que parece ser o tema da peça: a inexistência de verdades únicas, mesmo em questões simples. Não há verdades únicas e absolutas no mundo real, talvez com a exceção relativa das verdades comprovadas cientificamente e, mesmo essas estão sempre sujeitas ao escrutínio eventual de novas descobertas. Mas os espíritos autoritários independentemente de sua cor ideológica baseiam-se sempre na crença, aplicável aos demais e talvez menos a eles mesmos, de que são os portadores da luz. E aí reside um dos maiores males de ditaduras, a negação do dissenso, da opinião diferente, do pensamento, a autoiluminação demente. “A terra é plana”, “as eleições foram fraudadas”, “a covid-19 é uma gripezinha”, “cloroquina salva”, “distanciamento social não é necessário”. As declarações estapafúrdias se amontoam e acreditamos, queremos acreditar pelo menos, que seus autores não são tão néscios assim, há método nesta algaravia destinada a fazer seguidores e influenciar eleitores. O princípio da liberdade de expressão é constitucional e indispensável para o verdadeiro Estado de Direito e o convívio civilizado; seu limite é a responsabilidade pelo que se fala, injúrias, calúnias e difamações não são aceitáveis de modo algum. O inquérito em curso pelo STF destina-se a investigar, também, a prática de disseminação de “Fake News” por recursos eletrônicos chamados “robôs” que possibilitam o envio da mesma postagem por milhares, até milhões, de vezes, a um custo elevado cujo financiamento está também sob investigação. Isso não se constitui na legítima divulgação de opiniões, e sim em agressões e tentativas de intimidação de adversários ou simplesmente de divergentes; no mundo anterior à pandemia, a coletividade e a solidariedade vinham sendo substituídos paulatinamente pelo indivíduo e suas opiniões, num desprezo absoluto pela ciência e a comunidade. A psicologia social analisa bem como nossa tendência a formar noções simplificadas para entendermos e sobrevivermos às complexidades da vida real e que aos poucos se tornam imunes às contradições, passam a ignorar as exceções e rejeitam inclusive a própria experiência. Simplificar torna o ambiente reconhecível, elimina pormenores e assim nos permite adotar acriticamente as normas e valores vigentes, mas traz como consequência o medo do conhecimento. Atribuir à autoridade constituída o ato de pensar, faz odiar os que pensam por si, ou seja, duvidam das atitudes e comportamentos que estão fundados no estereótipo, nas explicações dadas pelos “guias”, eliminam a necessidade de manter viva a percepção. Toda criança é dependente do consenso de seus pais, tutores ou mesmo professores, e inicia sua vida em acordo com as exigências impostas dentro de seu círculo mais restrito, de onde extrai segurança, alimentos e os valores que nortearão suas vidas futuras. Escolas, como outras instituições que socializam são, portanto, junto com a família responsáveis pelas crenças que desenvolverão, e a educação para a maturidade, para a vida intelectual, poderá firmar autonomia e autodeterminação.

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dez 14, 2018

Ensino de Artes: A abordagem Triagular de Ana Mae Barbosa

Eliane dos Santos de Oliveira

Vanisse Simone Alves Corrêa

O surgimento da abordagem triangular objetivava a  melhoria do ensino da arte, na busca pelo entendimento da mesma e também uma buscava uma mais aprendizagem significativa. Preocupou-se pela busca de um conhecimento critico não somente para os aluno, mas também para os professores. Nos anos 90 a abordagem Triangular passou a ser colocada em prática. Inicialmente foi chamada de Projeto Arte na escola.  Mais tarde, ficou conhecida como  Triangular e/ou Abordagem Triangular. Entre essas duas nomenclaturas foi escolhido o nome de Abordagem Triangular (Barbosa, 2010, p.11). É fundamental ressaltar que a Abordagem Triangular não se refere a um modelo ou método, mas tem o objetivo de focar na metodologia adotada pelo professor nas suas aulas práticas,  sem vinculo teórico padronizado, a fim de não engessar o processo. Fica evidente portanto, que  a abordagem Triangular não se enquadra para quem quer seguir um método padronizado, ele  requer a  liberdade de obter conhecimento critico  reflexível  no processo de ensino [...], ajustando-se ao contexto em que se encontra (Machado, 20010, p.79). A Abordagem Triangular é uma abordagem diálogica. A imagem do Triângulo abre caminhos para o professor na sua prática docente. Ele pode fazer suas escolhas metodológicas,  é permitido mudanças e adequações, não é um  modelo fechado, que não aceita alterações. Não é necessário seguir um passo a passo. Para Barbosa ” (...)  refere-se à uma abordagem eclética. Requer transformações enfatizando o contexto” (Barbosa, 2010, p. 10).  

Fonte: https://memoria.ifrn.edu.br/bitstream/handle/1044/337/AE%2010%20-%20DF.pdf?sequence=1&isAllowed=y

  Segundo Novaes (2005),  a Abordagem Triangular aponta que é importante pensar, questiona  o que é  a imagem, o uso da imagem, a imagem do cotidiano  da história da arte e da cultura na sala de aula. É necessário fazer uma leitura crítica da produção da imagem das coisas e de nós mesmos.  Não depende só do sujeito a maneira como se vê uma imagem. É necessário também interpretar a mesma. A imagem visível aguarda uma leitura invisível que é revelada a cada deslocamento que ela faz. Para  Dewey e Freire (2010),  uma boa leitura de mundo artístico ocorre a partir do contexto em que se vive. Porém isso não significa focar só no ensino cotidiano do aluno, mas contribuir para que eles consigam fazer uma leitura crítica e contextualizar a imagem multicultural, podendo identificar  e não apenas apreciar, mas também comentar a beleza das imagens em uma sociedade em desenvolvimento sociocultural cumprindo o papel político de transformação social partindo do pressuposto das imagens artística (Dewey e Freire, 2011). Sobre a prática educativa do professor do ensino básico,  a Abordagem Triangular mostra seu valor nas artes visuais. Para o professor contemporâneo/artista, pode possibilitar uma análise crítica do seu próprio fazer, quando atuam como artistas e professores de artes visuais. É também interessante fazer uma análise no processo de expressão do professor artístico e do aluno artista que experimenta. Quando é algo mecânico e sem causa poética, não passa a singularidade do trabalho artístico produzido. O trabalho artístico passa sensibilidade e emoção. A Proposta Triangular da Prof.ª Ana Mae Barbosa possui estruturantes, a seguir descritos:  a contextualização, a apreciação e a produção.  

Fonte:  PÓVOA, M. A. M., 2012

  O eixo contextualização abrange os aspectos contextuais que envolvem a produção artística como manifestação simbólica histórica e cultural. nesse eixo, observa-se o que se transforma e como se revelam as representações que os grupos fazem de si e dos outros. Ele abrange, também, a análise das relações de poder que criam certas representações, diferenciando e classificando hierarquicamente pessoas, gêneros, minorias (PEREIRA, 2013, p. 22) A contextualização da obra permite entender em que condições a mesma foi produzida, bem como as relações de poder que estão implícitas nessa produção. Já Pereira (2018) define o eixo da apreciação da seguinte maneira: O eixo de apreciação está organizado diante de aspectos que lidam com as interações entre o sujeito e os artefatos da arte. Nesse eixo são mobilizadas competências de leitura que requerem do sujeito o domínio dos códigos estruturantes e suas relações formais. na apreciação também estão entrelaçados os aspectos simbólicos da produção artística e como a pessoa que dialoga com o artefato atribui a ele determinados significados. Aqui se operam uma série de relações provocadas pela interação entre sujeito e objeto. No eixo de produção, estão envolvidos aspectos da criação artística. Nele, o sujeito torna-se autor e precisa mobilizar conhecimentos sobre as linguagens para transformar em invenções artísticas. Aqui estão envolvidos elementos de natureza formal e simbólica. O sujeito mobiliza conhecimentos tanto conceituais quanto procedimentais, inventando tecnologias, adaptando materiais, articulando ideias (PEREIRA, 2013, p. 22). Esse eixo possibilita a percepção das interações entre os componentes dos objetos artísticos, na relação que ocorre entre o sujeito e a própria obra de arte. Sobre o eixo da produção, Pereira (2103), esclarece: No eixo de produção, estão envolvidos aspectos da criação artística. Nele, o sujeito torna-se autor e precisa mobilizar conhecimentos sobre as linguagens para transformar em invenções artísticas. Aqui estão envolvidos elementos de natureza formal e simbólica. O sujeito mobiliza conhecimentos tanto conceituais quanto procedimentais, inventando tecnologias, adaptando materiais, articulando ideias (PEREIRA, 2013, p. 22).   É nesse eixo que o aluno já tem condições de produzir. Todas as etapas que ele já percorreu permitem que ele se lance na produção artística, de modo qualificado, crítico e sensível.   Eliane dos Santos de Oliveira é graduanda em Pedagogia pela Universidade Estadual do Paraná - UNESPAR, campus Paranaguá.   REFERÊNCIAS: FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. 27. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996. IAVELBERG, R. Para gostar de aprender sala de formação de professores. Porto Alegre: Artmed, 2003. PARANÁ.  Diretrizes Curriculares para o Ensino de Artes. Disponível em http://www.educadores.diaadia.pr.gov.br/arquivos/File/diretrizes/dce_arte.pdf Acesso em 12 MAI. 2018. SALGADO, E. de C. V. de C.  Desenvolvimento e Inclusão Social de Pessoas com Deficiência. Universidade de Taubaté. (2013.) Dissertação de Mestrado. SANTOS, Santa Marli Pires dos. Educação, arte e jogo. Petrópolis, RJ: Vozes, 2006. SEVERINO, Antônio Joaquim. Metodologia do Trabalho Científico. São Paulo: Cortez, 2007. SILVA, Luis Eron da. Reestruturação Curricular: novos mapas culturais, novas perspectivas educacionais. Porto Alegre: sulina, 1996. In://www.bdtd.unitau.br/tedesimplificado/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=65Acesso em 20.08.18
TROJAN, R. M .A arte e a humanização do homem: afinal de contas, para que serve a arte? In: Educar em Revista. no.12 Curitiba Jan./Dez. 1996.
 
Resenha Crítica de "A Ilha" (The Island)
dez 03, 2017

Resenha Crítica de "A Ilha" (The Island)

Um grande laboratório situado em uma plataforma marítima produz clones humanos que nada mais são que uma apólice de seguros para seus clonados e fonte de riqueza para seus produtores.
A FEMINILIDADE: UMA CONSTRUÇÃO DO SER MULHER.
ago 25, 2017

A FEMINILIDADE: UMA CONSTRUÇÃO DO SER MULHER.

A Coluna INcontros recebe nesta semana, a contribuição de Guilherme Silva dos Passos* e Ana Suy Sesarino Kuss**, sobre um tema debatido em várias áreas do conhecimento, que é o da feminilidade e a construção do ser mulher, mas o enfoque dos autores aqui é aprofundado através da Psicanálise.

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abr 12, 2020

Irresponsabilidade e desprezo humano em líderes que se negam a suspender cultos presenciais

    Irresponsabilidade e desprezo humano em líderes que se negam a suspender cultos presenciais   No dia 20 de março, Jair Bolsonaro esteve no Programa do Ratinho, sem máscara, e fez a seguinte fala: “Tem gente que quer fechar Igrejas, o último refúgio das pessoas. Lógico que o pastor vai saber conduzir lá o seu culto. Ele vai ter consciência, o pastor, o padre, se a Igreja está muito cheia, falar alguma coisa, ele vai decidir lá”. O presidente também evocou o artigo 5º. da Constituição Federal, chamando atenção para a liberdade de crença e o livre exercício dos cultos religiosos. Sua fala veio junto da pérola: “Não podemos criar esse clima todo que está aí. Prejudica a economia”. Bingo. Um presidente que circula sem máscara em programas de televisão, em manifestações, em diversas situações de contato público, não está mesmo preocupado com as pessoas, e sim com o dinheiro. Ele, que está cercado por pelo menos 23 pessoas contaminadas com o coronavírus, que é o representante máximo do país e deveria dar exemplo, que pode ter contaminado centenas de pessoas nas últimas duas semanas... Estar sob a presidência do Messias trata-se de uma tragédia ainda pior do que a que já estamos vivendo com o coronavírus. Sua postura está na contramão das lideranças mundiais. Age, cada vez mais solitariamente, como se estivéssemos em um momento absolutamente trivial de nossa história. O problema principal é que isso oferece respaldo a outres líderes irresponsáveis como Silas Malafaia, que teve de ser parado por liminar, após ter se pronunciado em tom arrogante: “Gostaria de avisar aos governadores e a qualquer prefeito onde tenho Igreja, que se os senhores quiserem fechar as Igrejas onde sou pastor, tratem de ir à Justiça”. Na Coreia do Sul, o líder da Igreja Shincheonji, Lee Man-Hee, está sendo acusado pelo governo sul coreano de homicídio por negligência culposa, em função de ter, segundo o governo, omitido informações sobre seguidores/as/xs que poderiam ter entrado em contato com o coronavírus. No início de março, foi divulgado na grande mídia que perto de 70 %[1] das contaminações no país estariam relacionadas a membros desta Igreja que teria evitado as testagens e dificultado as estratégias do governo de quarentena. Claro que estamos nos referindo a um país de organização bastante distinta que o Brasil, com uma rigidez de medidas governamentais muito maior, no entanto, o que nos interessa nessa comunicação é compreender o que legitima a fala das lideranças religiosas que contradizem autoridades de saúde no mundo todo Há nesses discursos de líderes religiosos como Silas Malafaia uma autoridade como se fosse uma licença que paira sobre eles e que os(as) resguarda de obrigatoriedades, uma vez que sua condição seria tida como “especial”. Tal perspectiva é bastante antiga e encontra legitimidade no capital simbólico – como lembra Pierre Bourdieu – acumulado por essas pessoas diante de um número enorme de seguidores(as), diante de acordos que favorecem religiões majoritárias como as cristãs (como é o caso do Acordo Brasil Santa Sé), com base em uma história de séculos de alianças entre Estado e Igreja, uma história que ainda permite que Igrejas gigantes com acúmulo milionário sejam isentas de impostos. Afinal, padres, pastores(as), bispos, estariam, para aqueles(as) que comungam com sua fé, mais próximos(as) de Deus, daí sua legitimidade. Embora a secularização no Brasil tenha se iniciado há mais de dois séculos e a laicidade de Estado seja garantida em Constituição, nossas práticas demonstram que ainda estamos distantes de estabelecer relações conscientes entre estes poderes. Tamanho é o capital simbólico destes (as) líderes, que muitas pessoas se submeteriam a se contaminar e a seus familiares e amigos(as) para cumprir seu dever cristão e para com a comunidade da Igreja. Há alguns dias, vários grupos religiosos ainda mantinham suas Igrejas abertas, entre elas a Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo, a Igreja Mundial do Poder de Deus, liderada por Valdemiro Santiago, além da já citada Vitória em Cristo (Assembleia de Deus), sob a liderança de Silas Malafaia. No total, estes três grupos têm sedes com capacidades que somam mais de 30 mil pessoas. Outras Igrejas, como Renascer em Cristo, mantêm suas portas abertas, mesmo já oferecendo cultos online. Há medidas alternativas como orientações para manter distância entre os(as) fieis, álcool em gel nos templos e espaços de cultos, no entanto, tais ações são insuficientes para o combate ao vírus. Uma das justificativas é que a fé em Deus os(as) protege. Foi assim que se defendeu uma funcionária da Cidade Mundial dos Sonhos de Deus, ao ser abordada por telefone pela reportagem de apublica.org. E é assim que várias pessoas cristãs reforçam seu vínculo com as religiões, demonstrando sua fé. Nesse sentido, adoecer seria um sintoma de pouca fé. Eis uma lógica que sustenta massivamente a manutenção dos cultos presenciais, a ponto de Edir Macedo chamar o combate ao coronavírus de “coronafé”, ou “aquela confiança, aquela certeza de que Deus está contigo (...). A coronafé é para aqueles que creem com todas as forças, de toda a sua alma, de todo seu coração, de todo seu pensamento, naquilo que está escrito na palavra de Deus”. Ele complementou, ainda, que gerar medo e pavor é estratégia do Satanás, e por isso, desencoraja as pessoas a terem medo do coronavírus. A outra justificativa para manter as Igrejas abertas é, como já observado na fala de Bolsonaro, que elas teriam um papel fundamental em momentos de crise, sendo um espaço de refúgio, apoio, fortaleza e de renovação da esperança. Como justificar aos(às) fieis que justamente no momento de maior vulnerabilidade social, as Igrejas se fechem? Nesse ponto, podemos abrir espaço para uma reflexão mais ampla. As religiões  - ao contrário do que o senso comum prevê – transformam-se ao longo dos anos de modo a adaptar-se aos tempos. A fé não é destituída de racionalidade, ou seja, ela não é estritamente irracional. Envolve argumentos e convencimentos que operam com bases práticas, como melhorias de condições de vida, redes de solidariedade, mudanças de comportamento. Há uma racionalidade bastante sólida nesse tipo de vínculo. E tal racionalidade, ao mesmo tempo pode justificar adaptações das Igrejas em nome de sua sobrevivência, ou pode dar base para argumentos que negam a realidade. As Igrejas que se mantêm abertas, arriscando a vida de milhares de pessoas e contribuindo para a piora do quadro de contágio, estão no segundo grupo. Nem só orientações perigosas estão sendo propagadas nesse momento pelas lideranças religiosas. A Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), por meio de pronunciamento de seu presidente Walmor Oliveira de Azevedo, orientou que brasileiros(as) fiquem em casa. Makota Celinha, coordenadora do Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira – CENARAB, em pronunciamento  na página oficial do Facebook no dia 18 de março, pediu a suspensão de todas as atividades públicas presenciais ligadas às religiões afro, chamando atenção para a seriedade do momento e a responsabilidade de cada pessoa religiosa. Mesmo dentro do plural grupo de igrejas evangélicas, há muitas lideranças orientando que seus/suas seguidores/as cumpram a quarentena e acompanhem os cultos em suas casas, pela TV e internet. Esse é o caso do pastor Kennen Terra, da Igreja Batista da Praia do Canto, coordenador do Fórum Evangelho e Justiça, de igrejas evangélicas da Grande Vitória, que ressalta o papel das religiões nesse momento para levar esperança às pessoas, mas que isso deve ser feito de acordo com as orientações da OMS. Entre adaptações e resistências, tradição e modernidade, as religiões vivem e se reinventam a cada tempo histórico. Nesse contexto, cada liderança religiosa encontra sua voz, estabelecendo com sua comunidade uma relação que passa pelo grau de legitimidade e de capital simbólico que sua figura exerce e também pelos princípios religiosos reforçados em suas próprias narrativas e orientações. Quando a narrativa de cura apoia-se em absoluto na fé e no poder da liderança, perde-se de vista outras instâncias sociais que mediam o debate. Observamos, portanto, que as lideranças religiosas, de posse de seu poder simbólico que tem influência sobre um número enorme de pessoas, podem contribuir ou piorar o quadro da pandemia. A cadeia do poder simbólico tem uma estruturação fortemente vertical, e ao elegermos um presidente ideologicamente alinhado com esta estrutura, infelizmente, acabamos por reforçar o autoritarismo arrogante, irresponsável e infantil que justifica qualquer ação em nome da fé e nega o momento, as duras experiências internacionais, as orientações de órgãos como a OMS e o terror que pode se estabelecer ainda mais por aqui. O nome disso é desprezo pela humanidade com aparência de liberdade de culto.   Clarissa De Franco é psicóloga da Universidade Federal do ABC, doutora em Ciência das Religiões com Pós-doutorado em Ciências Humanas e Sociais e em Estudos de Gênero. Atua com Direitos Humanos e religião. É colunista e colaboradora de algumas mídias, como a Folha de S. Paulo. [1] Disponível em: https://veja.abril.com.br/mundo/seita-responde-por-73-de-casos-de-coronavirus-da-coreia-do-sul/. Acesso em abril de 2020.
As Veredas de Dom Casmurro
abr 11, 2018

As Veredas de Dom Casmurro

Capitu está morta. Esta talvez seja a única certeza que narrador e leitor compartilham ao término da leitura do romance Dom Casmurro de Machado de Assis. Esta certeza de morte é o leitimotiv da narrativa, isto é, o ato de narrar nasce desta necessidade de tornar à vida aquela que está morta: as Veredas Altas[1] de Dom Casmurro. Nas palavras do narrador: o meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência (p. 41). Em seu projeto memorialista, Bento Santiago tem como foco principal Capitolina, sua vizinha, amiga de infância, namorada e esposa. Ao final do romance, já não é mais a adolescência o seu objetivo narrativo, mas, nas palavras do narrador: O resto é saber se a Capitu da praia da Glória já estava dentro da de Matacavalos, ou se esta foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente (p. 276). Portanto, o “enigma de Capitu” é a ênfase memorialística que o narrador estabelece como espinhal dorsal de sua narrativa. Não à toa, a crítica literária, durante mais de cinquenta anos transformou este enigma em foco principal de suas análises. Alfredo Pujol, em 1917, afirma que Capitu traz o engano e a perfídia nos olhos e, por isso, soube ocultar aos olhos do marido sua relação com escobar (PUJOL, 2011, p. 45). Já Lúcia Miguel Pereira em 1937, apesar de condicionar a culpa à traição, quer perscrutar as motivações psíquicas que levaram a personagem ao adultério para saber se Capitu pode ser responsabilizada por isso (PEREIRA, 1980, p. 67). Somente, em 1960, com a publicação do livro “O Otelo Brasileiro de Machado de Assis”, a crítica estadunidense Helen Caldwell muda a abordagem temática para aquilo que o crítico português Abel Barros Baptista chamou de “o enigma do pé atrás”, isto é, ao chamar a atenção do leitor para a narrativa em primeira pessoa, Caldwell coloca o próprio narrador em evidência, secundarizando sua acusação e o colocando em questionamento. Sem dúvida – e acredito não ser preciso mostrar – esta inovação mudou os modos de recepção do romance pondo sobre ele aquilo que  Baptista chamou de um “manto de ambiguidade”. O que me leva a abordar este romance tem que ver com o modo de produção do Outro que se opera no discurso de Dom Casmurro. Em um determinado momento da narrativa, ao falar das curiosidades de Capitu no capítulo 31, o narrador afirma: Capitu era Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem. O jogo de imagens que faz funcionar no romance a relação entre o eu que narra e o outro narrado constitui os mecanismos de identificação e de produção da verdade que sutilmente determina a perspectiva do leitor. Como afirma Homi Bhabha em O Local da Cultura: o que se interroga não é simplesmente a imagem da pessoa, mas o lugar discursivo e disciplinar de onde as questões de identidade são estratégica e institucionalmente colocadas. (BHABHA, 2014, p. 89) A identidade de Capitu se constitui neste trecho e em todo o romance por meio do jogo da diferença entre o Eu que narra e o Outro que é narrado. Essa constituição se dá por meio da simulação da escrita, isto é, ao produzir o livro, Bentinho reconstitui não apenas as duas pontas da sua vida, mas principalmente Capitu. Ao reconstituí-la por meio da simulação da escrita, Bentinho pode deformá-la o quanto lhe for interessante para servir a seus propósitos narrativos de produção da verdade. E o faz a partir do jogo retórico que leva o leitor a acreditar que aquela e apenas aquela é Capitu. É neste sentido que a identidade é estratégica e institucionalmente colocada como produtora de imagem e de verdade. No capítulo 62 – Uma ponta de Iago – ao conversar com José Dias sobre Capitu e ter sido tocado pelo ciúme, a mente do jovem Bentinho voa em uma visualização terrível no qual diz: "Separados um do outro pelo espaço e pelo destino, o mal aparecia-me agora, não só possível mas certo. E a alegria de Capitu confirmava a suspeita; se ela vivia alegre é que já namorava a outro, acompanhá-lo-ia com os olhos na rua, falar-lhe-ia à janela, às ave-marias, trocariam flores e..." (ASSIS, 2008, p. 221) A reticência que encerra este trecho torna-se o signo/símbolo dessa simulação de escrita, pois cria o que Bhabha, citando Barthes, chama de o efeito do real, isto é, a bilateralidade do signo/símbolo passa a privilegiar a semelhança, na medida que estabelece uma analogia entre significante e significado, fazendo com que este predetermina aquele e produza o efeito do real. A medida que Dom Casmurro conta ao leitor os devaneios ciumentos do menino, produz um ritmo nas sequências das ações até o momento de se perder o fôlego simbolizado pelas reticências. Na medida em que incidimos nos elementos formais de construção da narrativa, duas questões nos surpreendem: quem perde o fôlego: o menino ou o adulto? E a segunda é: a narrativa é fruto do devaneio do menino ou jogo retórico do adulto? Essas duas questões possibilitam perceber como o signo/símbolo funciona como constituinte da identidade do Outro, pois “ela lança luz sobre os conceitos linguísticos concretos com os quais podemos apreender como a linguagem da pessoalidade vem a ser investida com uma visualidade ou visibilidade da profundidade (BHABHA, 2014, p. 91). Ao lermos a continuidade do trecho citado, vemos que ao obscurecer os modos de constituição da identidade de Capitu, Dom Casmurro, por meio das reticências, faz com que o leitor não perceba a passagem do imaginado para o dialogado e essa não percepção possibilita o enquadramento do leitor como leitor ideal deste narrador ciumento. As Veredas de Dom Casmurro tornam-se o mecanismo pelo qual o lugar da fala disciplina o Outro e pode constituir sua identidade de forma estratégica e institucional para servir suas vontades. Talvez seja um tanto repetir o que a crítica machadiana tenha se debruçado tanto, porém, a repetição do óbvio nos possibilita os constantes questionamentos não apenas dos efeitos discursivos, mas principalmente, as motivações, os lugares e as identidades que se escondem no discurso do Outro como forma de produção da verdade. [1] O termo Veredas Altas, tomado de empréstimo do romance “Grande Sertão: Veredas” de Guimarães Rosa é interpretado como ato narrativo motivado pela necessidade de ressuscitar a pessoa amada e pela terrível certeza da impossibilidade desse ato. Para melhor compreensão, sugiro a leitor do texto anterior publicado nesta revista.
CURITIBA NA 2ª MARCHA MUNDIAL PELA PAZ E A NÃO VIOLÊNCIA NO BRASIL
dez 17, 2019

CURITIBA NA 2ª MARCHA MUNDIAL PELA PAZ E A NÃO VIOLÊNCIA NO BRASIL

A cidade de Curitiba participa na próxima quarta-feira, 18 de dezembro, do Evento de Recepção da Equipe Base da 2ª Marcha Mundial pela Paz e a Não Violência. O movimento é uma ação internacional da organização não governamental Mundo Sem Guerras, apoiada por diversas instituições pelo mundo, e, em Curitiba, estão entre elas: Instituto Nhandecy, Mensagem de Silo, CEBB (Centro de Estudos Budistas Bodisatva), Silêncio e Movimento, Cia Re-Trato, Instituto Atiara, Rede Semear, Design ao Vivo, Nanak Asrham.

Trata-se de uma iniciativa por um mundo sem violência, sem armas e sem guerras com intuito de percorrer mais de 100 países, durante cinco meses. O objetivo é mobilizar as pessoas pela paz e a não-violência. Desta vez a Marcha Mundial começou em Madrid, na Espanha, no dia 2 de outubro, aniversário do nascimento de Gandhi e declarado pelas Nações Unidas como “Dia Internacional da Não-Violência”. A capital espanhola também é o ponto de encerramento, em 8 de março de 2020, após a volta ao mundo.

Neste período cada cidade se organiza a fim de reunir o maior número possível de pessoas, movimentos e organizações para desenvolver atividades e ressaltar aquelas já existentes em consonância com os temas da Marcha Mundial, já que a intenção da Marcha é também dar visibilidade e federar tudo o que já existe no mundo relacionado a superação da violência, gerando uma convergência regional, nacional e mundial.

Em Curitiba, o Evento será no dia 18 de dezembro, no Campus Rebouças da UFPR (Avenida Sete de Setembro, 2645 - ao lado do Shopping Estação), com início previsto para às 8h30 com a seguinte programação: Abertura cultural; Palestra “As Qualidades emocionais para a Paz”; Experiências com a Cultura da Paz e Não Violência; chegada da Equipe Base - 2a. Marcha Mundial desde Madrid; Open Space temáticos.

A concentração da caminhada pacífica será às 16h, na Praça Eufrásio Correa, e seguirá em direção a Boca Maldita, finalizando por volta das 18h, com o Símbolo Humano da Não-Violência. A 1ª Marcha Mundial Pela Paz e Não-Violência aconteceu em 2009. Ela teve início na cidade de Wellington, Nova Zelândia, em 2 de outubro, e terminou em 02 de janeiro de 2010, em Punta de Vacas, Argentina, após percorrer 120 países.

No Brasil, já passou por: Recife/PE, Salvador/BA, São Paulo/SP, Cubatão/SP, Caucaia/SP, Itapeva/SP, Paraisópolis/MG, Campinas/SP, Rio de Janeiro/RJ, Maricá/RJ e Londrina/PR.

Contato do Comitê da Marcha Mundial Curitiba: 41 99941 3494 (Régis): regisgarrett@hotmail.com 41 99927 3534 (Edite): vivencias.nhandecy@gmail.com Leia o Manifesto: https://www.facebook.com/worldmarchcuritiba/posts/112907650067470 Facebook:https://www.facebook.com/worldmarchcuritiba/https://www.facebook.com/events/1391702740985271/ Site oficial: http://pt.theworldmarch.org SERVIÇO: 2ª Marcha Mundial pela Paz e Não Violência Data: dia 18 de dezembro (quarta-feira) Horário: 8h30 às 18h Local: Campus Rebouças da UFPR, na Avenida Sete de Setembro, 2645 (ao lado do Shopping Estação) e Praça Eufrásio Correa.